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Tiradentes (1)/Divagações sobre o tempo

Luiz Carlos Merten

26 Janeiro 2016 | 19h57

TIRADENTES – Aqui estou, para mais uma Mostra Aurora, que começou ontem à noite. Cheguei e já fui correndo para o Cine-Tenda, para ver Urutau na Mostra Transições. O curador Cleber Eduardo me havia soprado que a Transições está forte, mas nem sobre-avisado poderia esperar pelo impacto que me produziu o longa (apenas 70 minutos) de Bernardo Cancella Nabuco. Gostei bem mais que o longa inaugural (também 70 minutos) da Aurora, Índios Zorós – Antes, Durante e Depois, de Luiz Paulino Santos, nome seminal do Cinema Novo, parceiro de Nelson Pereira e Glauber Rocha lá atrás, nos míticos anos 1960. Cleber gosta de dizer que a Mostra Aurora é de iniciantes e reiniciantes – Luiz Paulino enquadra-se na segunda categoria. Ele retoma um curta que fez em 1982, Ikatena – Vamos Caçar?, e parte ao encontro, ou reencontro, dos índios zorós. Encontra-os dizimados, evangelizados. No filme antigo, há uma cena em que meninos zorós atiram-se no rio, felizes. Luiz Paulino volta ao rio, que se encontra lá, mas as crianças foram-se. Ele se atira na água. Em busca do tempo perdido? Achei esse fragmento de Índios Zorós muito bonito, mas não consegui entrar na viagem, de Luiz Paulino, que se inicia por uma denúncia do desmatamento da Amazônia e da degradação dos índios e suas culturas, o que não é novo mas permanece tristemente atual, mas depois o filme me pareceu sem centro. O próprio diretor é uma amostra viva do sincretismo baiano. Fundou uma comunidade do Santo Daime, invoca Hare Krishna. Sem dúvida que ele se preocupa com a perda do paraíso, mas a fusão de evangélicos com madeireiros não me convenceu nem a expectativa de um encontro cósmico dos Zorós com suas tradições (em outro planeta?). Mas o filme é bem intencionado, honesto, Luiz Paulino coloca-se diante da câmera, vira personagem, expõe-se. Há que respeitar, embora eu fique com o pé atrás. O filme é sobre ele, como Serras da Desordem é sobre Andrea Tonacci. O curioso é que, díspares como são, Índios Zorós e Urutau são filmes sobre o tempo, perdido (e reencontrado?) o primeiro, suspenso o segundo. O tema de Tiradentes este ano é Espaços em Conflito e Bernardo Cancella cria um espaço fechado, claustrofóbico, onde um adulto mantém um garoto prisioneiro e abusa dele. Dominação/submissão. Um poder patológico gera uma submissão patológica. Certo? Em termos. Existem momentos em que o garoto inverte a equação e torna-se o dominador. O adulto o brutaliza, o sexo anal é filmado do ângulo do rosto do jovem, que se contorce de dor. Mas o adulto pervertido lhe cobra que é amor. ‘Diz que me ama”, pede. E o garoto, que em muita coisa faz o jogo do mais forte – para sobreviver? -, não diz. O desfecho certamente não era o que a plateia esperava. Relativizam-se os papeis. É um filme rigoroso, muito bem feito. Um dos mais terríveis do cinema brasileiro e mundial recentes. Norberto Cancella advertiu – “Meu filme não se assemelha a nenhum outro. E tem seu tempo.” Um tempo que parece suspenso. Todos os gestos do garoto são psicologizados. Lentos, precisos. É a sua maneira de postergar a dor e se tornar sujeito no próprio mundo. O mais impressionante é que o diretor é advogado de formação, mas, cinéfilo de coração, começou a estudar cinema, aprofundou-se e fez um filme de rigor absoluto. Imagem, som, tudo o que ocorre fora de quadro. Um espaço em permanente conflito. Não vi muito a transcendência de Índios Zorós, mas vi a de Urutau. Há uma questão (metafísica?) li dentro. Face ao poder ditatorial, o que fazemos da nossa liberdade? Até que ponto a queremos? “Deus, não foi isso que eu pedi”, chora o garoto. Urutau, o título, é um pássaro mítico, cujo canto se assemelha a um soluço. Estou pasmo. A Transições deu ontem de dez na Aurora – para mim. O público jovem já parece ter erigido Luiz Paulino seu profeta do ano. Ouvem-no embevecidos. E lá vou eu de novo para o Cine-Tenda.