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Luiz Carlos Merten

08 Dezembro 2007 | 19h29

Se George Clooney, como Michael Cayton, é o sujeito que limpa a m… dos outros, Tilda Swinton, no filme de Tony Gilroy, é a executiva fdp que limpa a sujeira da firma, mandando matar, se necessário. Confesso que ando meio cansado da Tilda Swinton. Talvez tenha contribuído um pouco a arrogâsncia dela na conferência do júri de Cannes, após a premiação de ‘Fahrenheit 11 de Setembro’, quando o tal foi cobrado por um jornalista – e ele nem era brasileiro – por que ignorara ‘Diários de Motocicleta’, de Walter Salles? Todo júri é soberano e o próprio presidente Quentin Tarantino poderia ter dito isso, mas Tilda se antecipou e disse com o maior desprezo que o filme não fora premiado porque não, como se não valesse nada. O tom foi muito agressivo, e de parte de um júri como aquele, que cometeu duas cagadas monumentais. Uma de premiar Michael Moore com a Palma de Ouro, achando que isso poderia influir na eleição que garantiu a permanência de George W. Bush na Casa Branca. A outra, no verdadeiro loteamento que foi aquela premiação, foi atribuir somente o prêmio de melhor ator a um garoto de, sei lá, quatro ou cinco anos, pelo filme ‘Ninguém Pode Saber’, de Hirokazu Kore-eda, que deveria ter recebido pelo menmos o prêmio de mise-en-scène, senão a Palma. Antipatias à parte, Tilda Swinton teve uma curiosa trajetória. Ela começou no cinema inglês mais autoral, trabalhando com Derek Jarman (‘Caravaggio’). Lembro-me quando ganhou o prêmio de melhor atriz em Veneza por outro filme de Jarman, ‘Edward II’. Cheguei a entrevistá-la – na verdade, entrevistei os dois; o ano era 1991 ou 92, Jarman morreria em seguida, de aids, após realizar ‘Wittgenstein’, no qual Tilda também trabalha. Ela não foi apenas simpática. Foi brilhante, soberana, numa verdadeira profissão de fé pelo cinema de autor (e o de Jarman, em particular). Ocorre que a Tilda foi cooptada por Hollywood e estereotipou num tipo de vilã sem muita nuance. De ‘A Praia’ para ‘Constantino’ e, agora, ‘Conduta de Risco’, acho que ela só piorou. Pena, porque Tilda era muito boa. Lembro-me dela também no ‘Orlando’ de Sally Potter, cujo enfoque da ambigüidade sexual sempre me pareceu beber mais em Derek Jarman do que em Virginia Woolf, que a diretora estava adaptando. Enfim, é com tristeza que admito, para mim mesmo, que ainda não foi com ‘Conduta de Risco’ que consegui me reconciliar com Tilda Swinton.