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Luiz Carlos Merten

25 Janeiro 2012 | 09h16

TIRADENTES – Um dos personagens de ‘As Horas Vulgares’ chama-se Theo. O filme capixaba de Rodrigo de Oliveira e Vitor Graize foi a atração de ontem da Mostra Aurora. É um filme sobre emizade viril, a crônica da morte anunciada de um daqueles caras e seu efeito sobre o grupo. É interpretado por um belo elenco local (belo em mais de um sentido, os homens e as mulheres), tem uma trilha nota 10 de jazz e é montado por Luiz Pretti – alguma coisa, ali, além do nome dele, faz a ponte com ‘Estrada para Ythaca’. O filme me tocou e eu tive de passar olimpicamente por um jantar com os comentários de praxe – alguém na mesa insistia que o filme tem ‘problemas’. Bem, a vida é cheia de problemas, existem filmes de Roberto Rossellini que não passariam no teste da técnica, e daí? Cheguei em casa, no hotel, dei uma zapeada na TV e estava quase dormindo quando tocou o telefone. Era meu amigo Dib Carneiro, que havia descoberto que Thiago Stivaletti inundara o Facebook com uma notícia que ele me repassou, avisando que eu ia ficar mal. Morreu Theo Angelopoulos. Como? Confesso que ‘As Horas Vulgares’ já me trouxera o fantasma da morte de Daniel Piza, que não cessa de me assombrar. Tão jovem, tão cheio de planos. Theo! O outro Theo, não o do filme. Temo agora ser melodramático. Entrevistei-o três ou quatro vezes, em Cannes e Veneza e outra em Berlim, com Orlando Margarido. A imagem que me vem é uma das últimas, Theo em Cannes, com a mulher – uma acompanhante feminina, pelo menos -, assistindo de longe à montée des marches. Sempre me perguntei o que se passava na cabeça dele. Foi depois que ele começou sua trilogia de Helena e, em Berlim, ele reclamara das dificuldades para conseguir dinheiro – se antes da grande crise era difícil, hoje deveria ser impossível. Theo contava com um Urso para alavancar financiadores. O Urso não veio. Sempre fantasiei que havia alguma amargura no olhar dele. Theo já reinara naquele tapete vermelho, ganhara a Palma, agora era um a olhar de longe a consagração dos outros. Alexandre, Orestes, Ulisses, Helena (que ele chamava de Yelena). Os mitos gregos sempre percorreram o cinema de Theo Angelopoulos. O mais belo de seus filmes? ‘Paisagem nas Neblina’, com aquele Orestes de motocicleta, conduzindo o casal de crianças edm busca do pai, numa Grécia brumosa. Theo morreu, segundo entendi, num acidente de trânsito, atropelado por uma moto. O destino, tão presente na tragédia grega. Tantos belos filmes – ‘Alexandre, o Grande’, ‘O Apicultor’, ‘O Passo Suspenso da Cegonha’, ‘O Olhar de Ulisses” – na verdade, foi ‘Um Olhar a Cada Dia’, no Brasil -, ‘A Eternidade e Um Dia’. Amava Theo, mas ele não era uma unanimidade. ‘Cahiers’ o chamava de cineasta ‘pompier’ e o menosprezava como autor. Eu sempre me encantei com a viagem no tempo de Theo. Em seus longos e lentos planos-sequências, o tempo parece suspenso, como nessa cena de ‘The Third Wing’, a segunda parte da trilogia de Helena, em que a multidão se agrupa na praça, ouve o anúncio da morte de Stálin e se dispersa na maior lentidão, muita gente andando a esmo, robotizada, com a perda do líder, numa era pré-desmistificação, em que ele ainda era considerado o co0ndutor dos povos. Como Angelopoulos conseguia o prodígio daqueles planos? Como conseguia criar um tempo, uma atmosfera? Custei a dormir, pensando no cinema de Theo Angelopoulos e no que me deu, com seus temas da imigração e do exílio, o exílio interior, o mais triste de todos. Vim à sala de imprensa da Mostra Tiradentes para redigir este post. Tenmho as matérias de hoje – filmes na TV, Tiradentes, talvez o Theo. E quero ir ao debate de ‘As Horas Vulgares’. Ontem, me disseram que o debatedor de ‘Balança Mas não Cai’ disse que ol filme de Leonardo Barcelos vai do nada para lugar nenhum. Para ele – que perdeu o rumo. Eu acho que haveria muita coisa interessante para discutir. Espero nãso perder o bonde de ‘As Horas Vulgares’.