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Cultura » Thelma e Louise à beira do abismo

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Luiz Carlos Merten

11 Março 2007 | 12h42

Estou postando da redação do Estado, de onde devo sair daqui a pouco, para um almoço de aniversário e uma ida ao cinema. Quero ver – ó céus – Norbit, com o Eddie Murphy, que a UIP não teve coragem de mostrar para a imprensa. Em geral, quando isso ocorre, a gente espera que seja o pior filme do mundo, mas não. Muitas vezes, os piores são aqueles em que as distribuidopras apostam e até oferecem régios cafés da manhã para a imprensa, antes de exibí-los. Mas deixa pra lá. O que quero dizer é o seguinte. De manhã, antes de sair de casa, dei uma zapeada na TV paga – como sempre, baixando do canal 66 para o 61, ou seja, do Canal brasil para a rede completa dos Telecines –, e peguei, já bem perto do fim, Thelma e Louise. Gosto de muita coisa que Ridley Scott fez, e sou até um defensor solitário de um filme que todo mundo tem prazer em bater – O Bom Ano. Há 16 anos, quando fez Thelma e Louise, Ridley Scott já havia se afirmado como criador de mundos imaginários com Os Duelistas, Alien (o primeiro da série) e Blade Runner. Havia feito A Lenda, que foi um grande fracasso (mas um amigo que reviu, há pouco, me disse que é muito melhor do que parecia em 1985 – será?), havia feito também Perigo na Noite, um noir chic mas que não teve muita repercussão, e Black Rain, do qual gosto, mas cuja carreira, para a crítica, se chocou com a do Black Rain do Imamura, sobre a bomba de Nagasaki. E chegamos a 1991, com Thelma e Louise. O filme virou preferido das platéias de mulheres, mas nunca engoli o feminismo do script de Callie Khouri (que ganhou o Oscar). Susan Sarandon e Geena Davis caem na estrada barbarizando. ‘Libertam-se’, como se diz, mas a trajetória delas é a repetição da trajetória masculina, na tela como na vida, e eu não acredito que a mulher, para se afirmar, tenha de reproduzir a violência e a galinhagem dos homens. Intelectualmente, não gosto de Thelma e Louise. Acho o conceito do filme discutível. Mas emocionalmente… Hoje, aconteceu de novo. Acho o máximo o diálogo final das duas, dentro do carro. Geena diz que está loucura, Susan retruca que ela sempre foi louca, mas não demonstrava. As duas riem, antes do sufoco. Face à fuzilaria iminente, trocam um olhar, dizem vamos em frente e saltam no abismo. Quando Harvey Keitel inicia aquela corrida atrás do carro, gritando ‘Não!’, confesso que tenho uma coisa. Um soco no estômago, um sobressalto. Aconteceu de novo. Mas eu acho que Ridley Scott errou no timing. Ele congela a imagem do carro muito rápido. O desfecho de Thelma e Louise vem de Butch Cassidy. Lá, também, o diretor George Roy Hill preservava o público do espetáculo da sua dupla atingida pelas balas – o que Arthur Penn mostra no desfecho de Bonnie & Clyde. Scott não quis mostrar o carro se espatifando no solo. Queria deixar o espectador com as duas vivas na lembrança, mas sempre acho que ele cortou rápido demais, que falta ali alguma coisa. A experiência, de qualquer maneira, é forte. Posso ser racional e criticar Thelma e Louise, mas o filme, e as atrizes, fazem parte das minhas lembranças inesquecíveis no cinema, ainda mais naquele cenário do Grand Canyon.

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