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Luiz Carlos Merten

28 Fevereiro 2009 | 23h44

Desde que voltei de viagem tenho feito algumas matérias sobre lançamentos de DVD no ‘Caderno 2’. São filmes clássicos – ‘O Rio Sagrado’, de Jean Renoir, com aquela cena da sesta que metaforiza, como o próprio rio do título, as descobertas que o ‘patrão’ do cinema francês fez sobre a filosofia indiana Nestes tempos de consagração de ‘Quem Quer Ser Um Milionário?’, de Danny Boyle, acho interessante que se discuta a Índia, seu cinema, sua economia (e sua democracia). Não tão bom, escrevi também sobre o lançamento em DVD de ‘As Troianas’, que integra, como episódio ‘do meio’ a trilogia de adaptações das peças de Eurípedes pelo grego Michael Cacoyannis. Compreendo perfeitamente as restrições que muitos críticos fazem às ‘Troianas’ – os compromissos que Cacoyannis teve de aceitar para fazer sua co-produção internacional -, mas como diz Jean Tulard, em seu ‘Dicionário de Cinema’, era isso ou nada, porque na Grécia ele não encontrava investidores para suas incursões pela tragédia grega. Mesmo inferior a ‘Electra, a Vingadora’ e ‘Ifigênia’, que podem ser comprados via Amazon, ‘As Troianas’ impressiona. Vejam e depois me digam se, a despeito da disparidade dos sotaques de Katharine Hepburn, Vanessa Redgrave, Geneviève Bujold e Irene Papas, vocês não foram tocados pela oratória (e veemência…) contida(s) nas falas de Eurípedes e realçados pelo tratamento audiovisual do diretor (e de seu compositor, Mikis Theodorakis). Mas agora quero falar de um terceiro lançamento sobre o qual não vou escrever no ‘2’, porque Antônio Gonçalves Filho já está tratando do assunto na edição de amanhã do ‘Telejornal’. Justamente o Toninho tinha me falado do lançamento de ‘The Louisiana Story’, recomendando a qualidade da imagem e dos extras do DVD com o documentário clássico de Robert Flaherty, de 1948. Quem lança é a Continental. Comprei por R$ 44,90. Não sei de vocês, mas eu sou louco por Flaherty. Sei que alguns historiadores colocam em xeque seu romantismo e até o fato de ele ter colhido um extraordinário triunfo com ‘Nanuk’, em 1922, justamente quando o esquimó que filmara morria de fome nas extensões geladas do Ártico. Muita gente até hoje recorre a essa história – e também à experiência real do protagonista de ‘Pixote’, de Hector Babenco – para discutir a capacidade transformadora do cinema. Mas eu concordo com Walter da Silveira, o grande crítico baiano, que considerava Flaherty como a suma antropológica do cinema. Sozinho ou em dupla – ‘Tabu’ foi co-dirigido por Wilhelm Friedrich Murnau -, Flaherty fez filmes que fazem parte da história do cinema. Sua contribuição à escola documentária inglesa de John Grierson, nos anos 30, foi imensa e levou diretamente a outro de seus clássicos, ‘O Homem de Aran’, mas por maiores que sejam esses filmes confesso que tenho um fraco por ‘Louisiana Story’. Contratado para fazer um filme sobre o petróleo pela Standard Oil, Flaherty penou porque a empresa, como você podem imaginar, não lhe permitiu abordar os verdadeiros problemas da extração e comercialização do combustível. O que fez o diretor? Contou a história de um menino de 12 anos nos pântanos, cercado mais pelos mistérios da natureza e dos animais do que pelas torres de perfuração encravadas na paisagem. Como um poeta, Flaherty revestiu seu filme da magia da infância e fez o que, até hoje, mais de 60 anos depois, permanece como um dos mais belos poemas ecológicos do cinema. Naquela epoca, nem se falava em ecologia. Flaherty foi um pioneiro, um visionário. O menino chama-se Joseph Boudreaux e o filme foi fotografado por um jovem que virou, ele próprio, grande diretor (e documentarista), Richard Leacock – embora Jean Tulard seja severo com Leacock e afirme que o cinema deste autor é a prova de que bons sentimentos (denúncia do preconceito racial, apelo à paz etc) não fazem bons filmes.