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Luiz Carlos Merten

28 Janeiro 2007 | 12h52

Entrei pela madrugada assistindo a O Último Rei da Escócia, que teve pré-estréia à meia-noite no Unibanco Arteplex. Minha primeira impressão não foi das melhores e não teve nada a ver com o adiantado da hora. Em qualquer outro momento do dia, acho que teria tido a mesma sensação. Forest Whitaker tem papado todos os prêmios pelo papel de Idi Amin e, se ganhar hoje à noite o prêmio do SAG, o sindicato dos atores, será imbatível para o Oscar. Acho que está impressionante, mas não sei se gostei dele. Aliás, não ando com muita paciência – perdão, leitores – com esses atores que mimetizam personagens reais. A própria Helen Mirren, de quem gostei tanto a primeira vez que vi A Rainha, já não me agrada tanto e, se fosse eleitor do SAG ou da Academia de Hollywood, dava meu voto para Kate Winslet, por Pecados Íntimos. Não digo que seja fácil recriar os gestos de um personagem público, mas, em geral, nesses casos, ficamos mais no exterior que no interior. A Elizabeth II de Stephen Frears e Helen Mirren tem toda a exterioridade da rainha da Inglaterra, mas seu interior… Não sei se vocês entendem o que quero dizer, mas se é para ficcionalizar o personagem real (e é o que o cinema faz), prefiro quando um ator, tipo Kate, não tem um modelo externo para compor e precisa criar tudo, exterior e interior. Tivemos, há pouco, dois filmes sobre a África – O Jardineiro Fiel, de Fernando Meirelles, e Diamante de Sangue, de Edward Zwick. Ambos se propõem a discutir a responsabilidade internacional, das potências colonialistas, sobre a verdadeira tragédia da fome, da violência e da corrupção que ainda são dominantes na África. Gosto mais da história de Diamante de Sangue, mas reconheço os limites da abordagem de Edward Zwick, com seu desfecho politicamente correto (que também existe no filme do Fernando). The Last King os Scotland, de Kevin MacDonald, trata de novo do Ocidente face à tragédia africana. Não estou muito seguro que Forest Whitaker, como Idi Amin Dada, seja o protagonista da história. O verdadero protagonista é o garoto escocês que tem problemas com o pai e foge para a África, para o mundo o primitivo, e chega lá sem saber que está ocorrendo um golpe. No minuto seguinte, após uma cena de sexo (pois o negócio dele é aventura), liga-se ao novo governante. Acho que o personagem principal de O Último Rei da Escócia é o jovem – ingênuo, um tanto idealista, ele desconfia das manipulações dos ingleses, mas, alienadamente, deixa-se manipular por Idi Amin. Este garoto se move num círculo amplo que vai desde o cínico agente do Foreign Office até a a mulher do altruísta médico inglês com quem ele tem um affair. Ela sabe o tempo todo que Idi Amin não veio para resolver os problemas de Uganda, mas para pilhar, matar e sei lá o que mais. Lembram-se do olhar de Peggy Ashcroft em Passagem para a Índia? David Lean expressava o olhar de horror do colonizador face ao colonizado. Quando o herói (que o agente inglês chama de macaco branco do ditador) corre atrás do ônibus que leva a mulher do médico, o olhar dela transmite o horror, ou a perplexidade, face à facilidade com que o amante ocasional se deixou envolver. MacDonald critica só em parte o Ocidente. Seu olhar é para a monstruosidade dos africanos, do próprio Amin. Se gostei do Forest Whitaker? Tem duas cenas – na primeira, a câmera acompanha o movimento, por trás, quando ele sobe ao palco para seduzir o povo da aldeia (e o médico escocês). Na segunda, há outro movimento. O médico chega no escritório e o presidente, de novo, está de costas, mas quando se volta, não é ele, mas um sósia. Em ambos os casos, a idéia final não deixa de ser a mesma – Idi Amin cria um teatro para reinar em Uganda como se fosse o último rei da Escócia. A interpretação de Forest Whitaker faz parte deste teatro. Sei não, mas saí do cinema com uma sensação muito desagradável de ter sido manipulado. Não havia gostado do documentário que Barbet Schroeder fez sobre Idi Amin nos anos 70, mas acho que MacDonald retoma como ficção, e com o personagem do médico, o mesmo enigma de lá. Em General Idi Amin, a gente não entende o que se passa na cabeça daquele cara grandalhão, ora risonho, ora ameaçador, que toca gaita, conduz uma reunião ministerial ou um desfile do Exército sempre do mesmo jeito de quem representa. Idi Amin foi sempre só uma caricatura, uma caricatura de si mesmo e do africano no poder. E isso, o próprio Idi Amin, no filme de Schroeder, mostrava muito melhor.