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Luiz Carlos Merten

14 Novembro 2011 | 12h02

Entrei ontem numa roubada, mas terminou valendo a pena. Corri feito louco para chegar no CCBB a tempo de ver ‘Mandingo’. Cheguei esbaforido e a garota na bilheteria me passou o ingresso de… ‘Superfly’. Como? ‘Mandingo’ estava passando ontem à tarde no Rio. Comentei depois com amigos que a máquina era burra, porque havia feito minha pesquisa na internet. Coloquei o título do filme e o local, Centro Cultural Banco do Brasil. Veio a programação do Rio, mas sem indicação de origem e eu nem me dei conta. Assumo minha burrice. Já que a máquina está sediada em São Paulo, pensei, lá no fundo do meu inconsciente, que ela me ofereceria em primeiro lugar a programação do CCBB daqui. Mas não. É a (des)vantagem de estarmos plugados no mundo. Mas, enfim, ainda terei uma chance porque a mostra ‘Tela Negra’ sai do CCBB – para dar espaço à retrospectiva de Nicholas Ray – e se transfere para o CineSesc, onde, no domingo à tarde, aleluia!, poderei (re)ver o filme de Richard Fleischer adaptado da série de livros de Kyle Onstott e Lance Horner, no ciclo de Falconhurst. Como não estava a fim de rever ‘Superfly’ – embora o filme de Gordon Parks com Ron O’Neal seja, até onde me lembro, bem interessante, com uma ambivalência moral em sintonia com o espírito da época, 1971 ou 72 –, atravessei o Anhangabaú a pé, para ir almoçar. Passei pela Galeria Olido e descobri que sediava o Mix Brasil. Sorry, mas me perdi na jogada. Nem percebi em que momento, após a Mostra, começou o festival das sexualidadees alternativas, talvez quando eu estava em Los Angeles. Mas, enfim, às 5 da tarde estava programado o ‘Teus Olhos Meus’ e eu fui ver o filme de Caio Soh que ganhou o prêmio do público na Mostra. Não tinha visto o filme do Caio e nem sabia do que se tratava. Achei meio surpreendente que o público da Mostra tenha premiado um filme gay. Ao contrário do Festival do Rio, que escancara a mostra Mundo Gay, a de São Paulo não levanta a bandeira e dilui o assunto dentro da sua ampla programação já voltada à defesa da diversidade. Não digo isso como crítica, mas como constatação. No final, Caio Soh estava na sala, o Hamilton, meu ex-colega do ‘Estado’, me apresentou o cara e até brinquei com ele que tinha muitos amigos em São Paulo – Caio é baseado no Rio –, ou então que sua vitória era a prova de que o mundo gay realmente cresceu muito em São Paulo. Brincadeiras à parte, Caio não quis fazer um filme militante, mas quis falar de amor. Homem de teatro, experimentador de visuais, nunca tinha feito cinema. Na apresentaçãop do filme – o diretor ainda não havia chegado –, o próprio sr. Mix Brasil, André Fischer, fez a ressalva de que, tendo sido feito com apenas R$ 5 mil, ‘Teus Olhos Meus’, compreensivelmente, tinha problemas técnicos, que ele pediu para o público relevar. Eu confesso que esse papo do problema técnico me passa batido, quando não aborrece. Posso admirar a perfeição técnica de ‘Avatar’, mas, se eu parasse para pensar nisso, seria porque a narrativa de James Cameron não teria me prendido. Inversamente, os ‘defeitos’ de ‘Teus Olhos Meus’ também só apareceriam se narrativa e personagens não fossem interessantes. Ou alguëm acha ‘Roma, Cidade Aberta’, de Roberto Rossellini, uma perfeição técnica? Só se for outra versão que não conheço. Estava achando ‘Teus Olhos Meus’ bem legal – o melhor filme já feito com R$ 5 mil –, mas aí aquele desfecho me derrubou. Achei excessivo, mesmo que o filme tenha ficado comigo – a ligação de dois homens, um bem mais velho do que o outro e ambos com passado de relações heterossexuais. Não vou revelar qual é a pirueta final – o twist, a reviravolta –, mas ela já está esboçada no começo, pois se trata de um flash-back. A questão é que Caio, ao abordar o incesto, talvez estivesse pensando – conscientemente? – na tragédia grega, cujo fabulário admite esse tipo de relação, que se torna inadimissível depois, ao ser transposto para a nossa herança judaico/cristã. O grande problema é que o desfecho acentua uma carga melodramática que já está presente o tempo todo no relato. Mas foi bacana ver ‘Teus Olhos Meus’ numa plateia de entendidos ou simpatizantes, como sói ser a do Mix Brasil. As pessoas riam nas horas certas, quando os personagens, Otávio e Gil, faziam referência às suas ligações heteros, ou quando Gil, o jovem, manifesta o próprio estranhamento pela fase que está vivendo. O filme terá nova sessão no sábado, acho que no Centro Cultural São Paulo (é bom conferir). Extrapolando, ouço por aí que ‘Fina Estampa’ é o maior sucesso da Globo no horário das 8 há não sei quanto tempo. De vez em quando, tento ver a novela e penso com meus botões. É insuportável. Uma novela em que ninguém presta, talvez para ressaltar as qualidades do Pereirão. Mas, enfim, embutido no pacote, Aguinaldo Silva, o autor, está conseguindo dizer mais vezes ‘viado’, ‘bicha’ (‘puto’ ainda não?), do que em toda a história da emissora. Cada vez que Marcelo Serrado entra em cena, o personagem é brindado com a artilharia de… Epítetos? Por muito menos que isso, o Ministério Público quis proibir o comercial das calcinhas de Gisele Bündchen. De novo, estou só constatando. ‘Viado’, pode. Mulher, não. Joga pedra na Geni, com os cumprimentos do MP.

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