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Cultura » ‘Tetro’!

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Luiz Carlos Merten

12 Dezembro 2010 | 11h50

Olá! Passei ontem o dia na correria. Por menos que a gente queira se render ao espírito consumista do Natal, tem sempre um presente para fulano, para sicrano. Havia prometido a Coleção Hector Babenco para um amigo, ‘Roque Santeiro’ para outro. O segundo foi mais fácil de encontrar. Bati perna atrás da coleção Babenco e não encontrei. Fui nas livrarias Cultura e Saraiva, o lançamento aparecia no computador, mas viramos as estantes, os funcionários e eu, sem encontrar a caixa com 8 DVDs. Em compensação, descobri um monte de coisas que nem sabia que haviam sido lançadas. Anotei uma meia dúzia que vão me render posts nos próximos dias. Aguardem. À noite, fui rever ‘Tetro’ com meu amigo Dib Carneiro. Gostei ainda mais do filme de Francis Ford Coppola, e olhem que desgostar teria sido muito fácil. Em primeiro lugar, assisti a uma bateria de comerciais, incluindo o da nova ‘Piauí’ – Nãããooooo! – e ainda havia um par de gays, o problema, lógico, não era esse, mas nunca vi um saco de pipoca tão sem fundo como o daquele cara. Ele passou o filme inteiro cavoucando nas pipocas, como se estivesse arranhando o saco. Azcho que fazia de propósito, só pode ser. Deus, que pesadelo! Mas o filme é lindo. Dib gostou muito, mas empacou na falta de verossimilhança do ‘Festival da Patagônia’, animado por Alone, a maior crítica da América do Sul, interpretada por Carmem Maura. Confesso que aquilo não é muito verossímil, as cinco peças finalistas sendo montadas na hora, mas confesso que fico tão imerso no clima do filme que aquilo não me incomoda, ou melhor, nem me havia colocado a questão. Aliás, a prop´´osito de Alone tenho de fazer um mea culpa. A personagem é uma homenagem a Roberto Bolaño, mas não sei porquê, embora leitor de ‘2266’, me sai no automático – Bolaño vira Carlos para mim, um erro tão elementar quando chamar ‘Pixote’ de ‘A Lei do Mais Fraco’ e não do ‘Mais Forte’, como é.De volta a ‘Tetro’, o clima ‘portenmho’, a teatralidade do tango, a história dos dois irmãos e a revelação final, a agressividade de Vincent Gallo e a ingenuidade (candura?) de Alden Eirenreich me tocam e a grande Maribel Verdú merecia esse papel maravilhoso, que não foi o cinema espanhol que lhe deu, mas Coppola. Embora já tivesse gostado muito do filme em Cannes, no ano passado, quando integrou a mostra Quinzena dos Realizadores, havia-me esquecido de muita coisa, que fui redescobrindo com imenso prazer. Os balés encenados à maneira de Pina Bausch, as referências a Michael Powell, a ‘Sapatinhos Vermelhos’ como a ‘Contos de Hoffman’, me deixaram siderado e eu aproveito para dizer que, na sexta, recebi o telefonema de Tiago Stivaletti, que faz a divulgação do CCBB e ele me anunciou que, na sequência do ciclo de Hou Hsiao-hisien, o Centro Cultural vai promover uma programação dedicada ao parceiro de Emeric Pressburger, o que vai ser um grande fecho para 2010. Aliás, meu amigo Alessandro Giannini está me cobrando a participação numa dupla enquete, para apurar os melhores filmes do ano e os melhores da década. Tenho de parar para pensar nos títulos, mas vocês podem me ajudar propondo suas listas, que sempre vão me ajudar a lembrar de coisas. O que eu sei é que, nos meus melhores do ano, não vão faltar dois dos maiores talentos de Hollywood na atualidade. Christopher Nolan, com ‘A Origem’, e David Fincher com o verdadeiro filme de horror da nossa época, ‘A Rede Social’. Estou muito inclinado a colocar o ‘Tetro’, também, e o ‘Tropa 2’, não sei se como filme ou fenômeno social, mas a confluência dos dois faz do filme do (José) Padilha um marco do cinema brasileiro. Detesto fazer duas listas, a do cinema mundial e do nacional. Assim como o próprio Padilha prioriza o fato de ‘Tropa 2’, ao ultrapassar ‘Dona Flor’, estar unificando as duas listas existentes – os filmes da Retomada e o antes –, o que me interessa é tirar o cinema brasileiro da sua condição de primo pobre.