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Luiz Carlos Merten

19 Novembro 2006 | 10h00

Lah vou eu digitar de novo. Havia postado um texto anterior ao do Karin e quando fui conferir, tinha-se ido, sei la por que (que nem as malas dele).Depois de quase 24 horas de viagem entre Sao Paulo e o hotel em Tessalonica, cheguei ontem a noite morto de cansaco. Comi alguma coisa e desmaiei. Acordei de manha, fui fazer o credenciamento para o 47.o Festival de Tessalonica e, na chegada ao centro de imprensa cai no meio de um debate sobre o filme Mon Colonel, de Guillaume Herbiel. Na mesa estava o Costa-Gavras, que co-escreveu o filme (e provavelmente co-dirigiu, tem coisas ali que sao dele). Mon Colonel trata da Guerra da Argelia, mas tinha gente no debate que estava mais interessada em cobrar do Costa sua posicao sobre outra guerra, a do Iraque. Ele bate duro no conceito de terrorismo do presidente George W. Bush. Lembra que importantes estadistas mundiais foram terroristas e o fato de o mundo ter mudado nao impede as nacoes, os povos, de continuarem lutando por sua liberdade. Costa defende o dialogo, mas historicamente reconhece que as sociedades hegemonicas soh aceitam sentar a mesa de negociacao para discutir o fim de seus privilegios quando acuadas, Aconteceu na Argelia, no Vietna. Ateh hoje cobram dele (cobraram ainda hah pouco) os filmes que fez sobre a Grecia, a Checoslovaquia, o Chile. Costa diz que investiu contra ditaduras a esquerda e a direita movido pela compaixao que lhe provocaram personagens vitimas dessas ditaduras tao diferentes, mas no fundo tao iguais. Mais do que a denuncia do poder, ele acha que o verdadeiro tema de Z, de A Confissao e Estado de Sitio eh o sofrimento humano que sempre o indignou. Se voce acha queo mundo globalizado eliminou os problemas, nao sabe em que mundo vive (ou vivemos). Hah mais liberdade hoje, mas como diz Costa eh uma liberdade de consumir, monitorada pela propaganda. Hah, em todo o mundo, um contingente muito grande de excluidos, que sao a base para o bem-estar dos grupos e sociedades hegemonicas. A Russia foi libertada do comunismo para cair sob o jugo da Mafia e de um governo acusado de totalitarismo e corrupcao. O que mudou realmente? O Festival de Tessalonica promete, a se julgar por essa polemica em seu inicio. O festival eh uma loucura. Durante uma semana, paralelamente a competicao para diretores estreantes (ateh o segundo filme), inclui uma programacao tao intensa, com tantos filmes e homenagens, que seria necessario multiplicar-se em 20 para tentar atender a tudo. O que mais nos interessa eh a homenagem ao cinema brasileiro, com debates e projecoes de 18 filmes, desde classicos do Cinema Novo a obras importantes da retomada. Karin Ainouz concorre ao Alexandre de Ouro com O Ceu de Suely e Marcelo Gomes estah chegando para o lancamento de Cinema, Aspirinas e Urubus nos cinemas da Grecia. Tambem pretendo acompanhar o que puder das homenagens ao cinema chines e a Nuri Bilge Ceylan, o cineasta turco que descobri este ano em Cannes, embora ele ja tenha uma elogiada obra anterior. Como cereja do bolo, Tessalonica culmina a retrospectiva integral da obra de Wim Wenders com um debate entre Walter Salles e ele, para debater o cinema de estrada, que ambos gostam de praticar. O festival comecou sexta. Para mim, estah comecando hoje, mas promete bastante. Ah sim. Idiotamente soh descobri ao chegar aqui. Tessalonica eh a capital da Macedonia, Na propria cidade existem ruinas que evocam Alexandre, o Grande, que dah nome ao trofeu que o festival oferece a seus vencedores.