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Tesouros japoneses

Luiz Carlos Merten

05 Fevereiro 2017 | 20h14

PARIS – Jantei com Elaine Guerini no André, um restaurante da Rue Marbeuf, no Champs Elysées. Boa comida, boa bebida, boa conversa. Combinamos de ver amanhã à noite A Grande Muralha, de Zhang Yimou, com Matt Damon. Não faço outra coisa senão ir ao cinema. Vi ontem, sábado, Sanjuro, de Akira Kurosawa. E, na sequência, outro japonês, Le Grondement de la Montaigne, de Mikio Naruse. Não conheço tanto Naruse quanto gostaria, mas se você entrar na rede verá que, no Japão, desfruta de excelente reputação e é considerado o quarto grande, após Akira Kurosawa, Kenji Mizoguchi e Yasujiro Ozu. Encontrei, sobre ele, uma frase ótima de Kurosawa, que vou reproduzir de lembrança – ‘Os filmes de Naruse se assemelham a lagos tranquilos, mas, quando você se aproxima, percebe que as águas são turvas e há redemoinho sob a superfície.” Como, quase sempre, em Ozu, o tema é a transformação da família tradicional japonesa. O velho pai e a mulher dividem a casa com o filho e a nora. O filho tem uma amante, chega a filha que está se separando do marido E com duas crias. A nora é meio que criada de todo o mundo. Não consegue engravidar e, supostamente, é o motivo da insatisfação do marido. Mas ela prefere abortar a trazer ao mundo um filho dele. E Naruse ousa mais do que Ozu. Deixa no ar que talvez sogro e nora se amem. Gostei demais do filme. De Sanjuro, então, nem se fala. Neste domingo, na mesma retrospectiva de Kurosawa – no Champô -, vi um filme que só conhecia de fama. Barberousse, Barba Ruiva, ou Rubra. Não exagero se disser que, a despeito de Rashomon, Os Sete Samurais, Yojimbo, Kagemusha e Ran, Sanjuro e Barba Ruiva são, agora, neste momento, os meus Kurosawa(s) preferidos. Sanjuro, ou Dez Homens e Um Destino. O sobrinho de um grande homem vai reclamar do tio da corrupção, o tio não leva o caso adiante, ele vai ao chefe de polícia e esse é o chefe da gangue. Entra em cena o samurai Sanjuro – o nome é de flor, Camélia – para salvar o tio, o jovem e seus oito aliados. Em Barba Ruiva, o jovem médico que sonha com uma carreira na corte vai parar no dispensário de Toshiro Mifune. Toma lições de vida e muda seus planos para o futuro, mesmo quando Mifune lhe diz que rouba, mente, mas o jovem sabe que é por uma boa causa, para ajudar os pobres, esquecidos dos poderosos. São filmes geniais e eu confesso que esses discursos me perturbam. Relativizam a corrupção e a própria ética, o mesmo discurso de Steven Spielberg em Lincoln – onde o presidente tem de comprar apoio no Congresso -, num mundo, o nosso, em que existem tantas suspeitas sobre o funcionamento (de classe) da Justiça. Confesso que estou louco para voltar ao Brasil – ainda nem fui para Berlim! – para reler o capítulo sobre Barba Ruiva de O Imperador e o Lobo, o livro sobre as carreiras de Kurosawa e Mifune e a ruptura entre ambos, justamente devido a um desentendimento no set de Barberousse, quando Mifune ousou interpelar Kurosawa, questionando uma ordem dele, com a qual não estava de acordo, diante da equipe. Esses gênios não eram fáceis e, certamente, não eram ‘democráticos’ no trabalho. John Ford humilhava John Wayne, chegou a esbofetear Maureen O’Hara numa festa. Mas eu confesso que só consigo odiá-los aqui, agora. Qualquer que tenha sido o desentendimento, não está no filme. Para a estética de Barba Ruiva, o imperador estava certo. Mas eu entendo o lobo, e me dói que uma das grandes parcerias do cinema tenha terminado assim.