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Luiz Carlos Merten

13 Agosto 2007 | 09h17

Chegamos em Gramado, um grupo que integrava Luiz Zanin Oricchio, Maria do Rosário Caetano, Neusa Barboza, Carlos Helí de Almeida e eu, mortos de fome, lá pelas 4 da tarde. Fomos almoçar, menos a Neusinha, num raro restaurante que ainda estava aberto àquela hora. Saímos quase às 6, em êxtase, como se o restaurante, que tinha nome ligado à cinema – Carlitos -, fosse a própria mesa de Babette. Juramos que não íamos comer mais nada à noite, mas, vocês sabem, a carne é fraca e, às 11 horas, fomos tomar uma sopinha de capeleti, mais uma polentinha… Gramado é uma perdição gastronômica. Voltamos meia-noite e meia para o hotel e eu, exausto, não consegui postar nada sobre o programa da primeira noite, o que faço agora. Vimos dois filmes brasileiros – Castelar e Nelson Dantas no País dos Generais, de Carlos Alberto Prates (que tem um site, se vocês quiserem conferir, sertanejadecinema@ig.com.br), seguido de Valsa para Bruno Stein, de Paulo Nascimento. Castelar e Nelson Dantas seria o documentário da noite. Coloco no passado imperfeito porque é um filme de difícil classificação. É mais um filme nos limites da ficção e do documentário, como Santiago, de João Moreira Salles, ou Serras da Desordem, de Andrea Tonacci – que venceu em Gramado no ano passado -, e até, por que não?, um filme-ensaio, documentado mas nãso documentário, como os de Marcelo Masagão, de quem o festival deve exibir este ano Otávio e as Letras. Gostei de Castelar. É um filme difícil, exigente. Carlos Prates – o diretor agora se assina assim – foi às suas raízes mineiras e fez o resgate do sonho de sua geração de cinéfilos. O filme não conta propriamente uma história nem é didático. Não tem, como se diz, um fio condutor. As imagens – as recentes e as de filmes antigos – batem na tela como fragmentos (proustianos) de tempo e lembrança. Na saída, encontrei uma produtora que está impossibilitada de se manifestar. Ela me abraçou e disse o que eu estava pensando – como aqueles caras eram bons! Prates volta-se sobre os próprios filmes (Perdida, Cabaret Mineiro, Noites do Sertão) e reflete sobre os de Joaquim Pedro de Andrade, Tonacci, Schubert Magalhães e Maurício Gomes Leite, essa figura mítica, de certa forma o nosso Godard, que iluminou brevemente o cinemas mineiro (e brasileiro) nos anos 60. Revi assombrado as imasgens de O Padre e a Moça e Os Inconfidentes (gosto mais da vertente mineira que da tropicalista na obra de Joaquim), Bangue-Bangue, Vida Provisória e reencontrei um filme perdido nos confins da minha memória, O Homem do Corpo Fechado, com o jovem Roberto Bonfim como peão boiadeiro numa trama de vingança. Prates é um sujeito recluso e hoje não estará no debate sobre seu filme, daqui a pouco. Parece que ele chega amanhã a Gramado. Seria interessante debater com ele este filme de cinéfilo, sobre cinéfilos, e que também é uma de referência de (e sobre) o cinema brasileiro dos últimos 40/50 anos. Prates fez um filme sobre sua geração, os seus amigos. Outros conhecidos diretores de Minas não aparecem – Helvécio Ratton, Paulo Thiago. Não importa. O filme não é um resgate do cinema mineiro como um todo – mas a cachoeira de Humberto Mauro está lá e o Matraga de Roberto (Santos) também. É uma coisa geracional, pessoal. Não sei se vocês vão gostar, mas o cinema, como eu o entendo, termina sendo sempre uma viagem interior da gente. Uns poderão gostar mais do que outros. Eu entrei num túnel do tempo e me revi jovem, em Porto Alegre, assistindo a todos aqueles filmes. Sobre Bruno Stein, leia o próximo post.

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