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Luiz Carlos Merten

16 Novembro 2006 | 11h33

Ana Luiza Müller vai me matar. No post de ontem sobre os filmes brasileiros que estréiam amanhã, esqueci justamente do quinto nacional – Fernando Lemos, Atrás da Imagem, do Guilherme Coelho, que ela divulga. Guilherme, que ainda não tem 30 anos (nasceu em 1979), dirigiu um filme do qual gosto muito, Fala Tu, um documentário que tangencia a ficção e cujo último plano, a solidão do cara que perdeu a mulher (coisa que o diretor não poderia prever que ia ocorrer durante a filmagem), é, para mim, o mais ‘antonionesco’ que o Antonioni não filmou. Aquela parede branca, a tristeza do cara, me tocam lá no fundo da alma. Guilherme fez agora outro documentário (de média-metragem, tem só 55 minutos) sobre o Fernando Lemos, que já era multimidia antes que a palavra existissse. Radicado no Brasil há 50 anos, Lemos chegou ao País fugindo da ditadura do Salazar, em Portugal. Fotógrafo, pintor, desenhista, poeta, artista gráfico, o que mais ele é? Sua obra, que vive atrás da imagem, em duplo sentido (no de perseguir e de se esconder), trata da desterritorialização, uma coisa que aflige o estrangeiro que produz cultura fora de sua raiz. Por que isso interessa a Guilherme Coelho? Por que ele fez antes o Fala Tu, sobre aqueles rappers da periferia do Rio? Como Cao Hamburger também mostra em O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias, é possível ser estrangeiro na própria terra e este é o tema do cinema de Guilherme Coelho. É uma maneira muito original (talvez não seja a melhor palavra, vou substituir por sincera) de refletir sobre a exclusão, que não é só social. É mais um brasileiro para ver, a partir de amanhã.

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