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‘Território Restrito’

Luiz Carlos Merten

12 Abril 2009 | 09h51

PORTO ALEGRE – Nas últimas vezes que entrevistei Alice Braga, ela sempre me falou (bem,) de Harrison Ford e agora o filme que Alice fez com o astro de ‘Indiana Jones’ entrou em cartaz sorrateiramente. Não diria que ‘Território Restrito’ é bom, mas gostei de ter visto o filme de Wayne Kramer, que havia feito ‘Quebrando a Banca’. Numa época de paranóia, em que George W. Bush falava em construir um muro para separar a fronteira mexicana – aliás, é curiosa essa obsessão por muros e como tanta gente que era contra o de Berlim agora acha esses bacanas; me chocou muito o muro que separa Gaza em Israel, mas eu, enfim, não sou parâmetro para ninguém -, o filme vem discutir a questão do imigrante. São vários no filme. Mexicanos, islâmicos, chineses, africanos. Várias histórias cruzadas – e a personagem de Alice Braga abre e fecha ‘Território Restrito’ -, todas tendo como eixo o agente de fronteira humanitário interpretado por Ford. Entrevistei-o só uma vez na vida, e foi por ‘Segunda Chance’, o filme de Mike Nichols, em Veneza. Achei Harrison Ford muito chato, tão politicamente correto – antes que o conceito se impusesse – que me pareceu um mala, mas o respeito como ator. Ele pode representar o mínimo, mas tem, como os grandes astros dos anos dourados, o ‘pathos’. Há uma amargura desenhada em sua cara, no rictus de seu sorriso. Ele passa, de forma convincente para mim, um sentimento de desgosto em relação ao mundo. E o filme tem a cara de uma ‘América’ que se transforma. Logo no começo, a jovem de ascendência árabe faz uma redação escolar tentando entender por que terroristas jihadistas atacaram as torres gêmeas e a casa é invadida pelas brigadas de Bush Jr. O encontro da advogada com a agente-mór expressa pontos de vista inconciliáveis. As histórias se sucedem, culminando na cerimônia de assumir a cidadania. De certa forma, ela é o equivalente do desfecho de ‘Independence Day’, no qual o alemão Roland Emmerich teceu uma fantasia bélica para celebrar o 4 de julho como a data de redenção da humanidade. Aqui, a celebração é mais intimista. A ‘América’, como terra da promessa e da liberdade, volta a abrir seus braços para acolher os imigrantes. O próprio hino, cantado a capella, dá um tom mais cerimonioso à cena. Não é só a vida daquelas pessoas que está mudando. ‘Território Restrito’ tem a cara do que se espera venham a ser os EUA sob Barack Obama. Alice Braga aparece pouco, mas ela é tão intensa que não precisa mais do que esses poucos minutos para insinuar uma personagem que fica com o espectador.