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Luiz Carlos Merten

31 Outubro 2007 | 12h05

Pego o táxi de manhã na esquina da Rua Pinheiros, quase sempre com o mesmo motorista. Às vezes ocorre de a gente se desencontrar, como hoje, e eu tenho de pegar um táxi da rua. Os motoristas conhecidos respeitam quando quero ficar quieto, pensando nas matérias que tenho de escrever ao chegar no jornal. Os avulsos são mais difíceis. Motorista de táxi tende a ser falastrão. O de hoje beirava o insuportável. Falava sem parar, criticando o governo (direito dele), mas confesso que me aborreço quando ouço essas histórias de que político brasileiro é tudo corrupto. Se fosse nos EUA… É uma fantasia das pessoas de que nos EUA não existe corrupção e que lá o Legislativo e o Executivo são mais cobrados pela máquina da Justiça, a serviço dos cidadãos. Pode até já ter sido assim, mas hoje não é mais e a presidência imperial de Bush filho é alvo de incontáveis denúncias, que a imprensa, convivente com o presidente, não se preocupa mais em apurar. Não quero absolver nenhum corrupto brasileiro ou estrangeiro, só dizer que essas generalizações um pouco fáceis me cansam. Mas, enfim, o cara falava sobre os EUA e eu comecei a viajar. Me lembrei de ‘América, América’, grande filme de Elia Kazan nos anos 60, lançado no Brasil como ‘Terra do Sonho Distante’. Kazan inspirou-se na história do próprio avô, que saiu de Anatólia para ‘fazer’ a América como se diz e enfrentou todo tipo de percalço, até se prostituindo, para chegar à terra prometida. Stathis Giallelis era o ator e até onde me lembro o filme era magnífico. Preto-e-branco suntuoso, uma emoção de arrepiar na cena em que Stavros (era seu nome) ajoelha-se para beijar o chão da tão sonhada América. Kazan estava no auge, após ‘Clamor do Sexo’, mas a sua crítica foi considerada excessiva e ‘Terra do Sonho Distante’ foi boicotado pela empresa produtora e distribuidora Warner. Nunca mais revi este filme, que parece ter sumido na noite dos tempos. Agora me dou conta de que nunca vi o DVD nas lojas da Virgin em que comprei raridades, em Los Angeles e Nova York. Sempre achei impressionante, visceral, o ódio de Kazan pelos EUA – pelo que eles chamam de América – desde que foi cooptado pelo macarthismo, denunciando antigos camaradas do Partido Comunista. Esse homem viveu sempre devorado pela culpa, pela necessidade de se explicar. Da visão crítica de Kazan saltei, na minha imaginação, para um filme de Arthur Penn de que gosto muito, ‘Amigos para Sempre’. Três amigos de faculdade envolvem-se com a mesma garota, Georgia, nos contestatórios anos 60. Um deles é baleado. Diante do filho estendido no leito do hospital, o pai diz apenas uma palavra – ‘América!’ –, mas o ressentimento é tão grande que ela ainda ressoa na minha cabeça (o filme é de 1981). O pai é um imigrante iugoslavo. Não consegue ver a pátria de adoção com os olhos sonhadores do filho. Não se trata de estimular um fascismo de esquerda para ser contrário aos EUA. Mas a América, terra do sonho, já vinha sendo contestada, desde os anos 50, por todos aqueles diretores que ajudaram a me formar e informar – Robert Aldrich, Nicholas Ray, Richard Brooks, Samuel Fuller, para não falar no grande Otto (Preminger). Quero dizer com tudo isso – uma conversa comprida, e sem parágrafos! –, que acho a crítica, seja da crítica, da imprensa, dos EUA, do governo brasileiro, uma coisa necessária. O que me desagrada é o tom autodepreciativo. ‘Eles’ são sempre melhores. ‘Nós’ somos o que somos. Não é verdade.

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