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Luiz Carlos Merten

04 Fevereiro 2011 | 12h26

Mauro Brider comemora, e eu comemoro com ele, porque a Versátil vai lançar ‘Terra Bruta’. No livro com a entrevista que deu a Peter Bogdanovich, John Ford é o crítico mais duro do próprio filme, dizendo que não gostava do roteiro e acrescentando que fez ‘Two Rode Together’ como um favor pessoal ao tycoon da Columbia, Harry Cohn. Quero dizer que não compartilho da opinião do diretor e sou mais o Mauro. Inclusive, num filme de ‘ação’, ‘Terra Bruta’ tem uma das grandes cenas do cinema, diálogo puro. Depois de uma cavalgada, James Stewart e Richard Widmark tiram as botas, colocam os pés dentro d’água para refrescar e ficam ali ‘proseando’. Nunca me canso de rever a cena, que me encanta pelo à vontade dos astros, e também gosto da crítica de Ford à hipocrisia do puritanismo religioso, na cena do baile, em que todas as mulheres ficam tricotando, cheias de curiosidade em relação a Linda Crystal, que está sendo reintegrada à ‘civilização’, depois de ter sido mulher de índio. Robert Aldrich chegou perto da essência daquele diálogo de Ford em ‘A Vingança de Ulzana’, quando Burt Lancaster e Jorge Rivero, como Kenitay, se sentam ao pé do fogo e o segundo explica ao primeiro por que o chefe índio está pilhando e matando no Arizona. A simples colocação de câmera nesses filmes faz uma diferença enorme em relação à mediocridade de diretores como J. Lee Thompson (que até tem uns filmes bons no currrículo). Em ‘O Grande Búfalo Branco’, um dos muitos veículos que fez para Charles Bronson, Thompson também tem um diálogo ao pé do fogo, para explicar a obsessão do personagem, atrás do mítico animal do título. Só que o diretor, querendo agradar ao público de Bronson – tiros e pancadaria -, não acredita que o espectador vai ter paciência de ficar ouvindo um diálogo filmado com a câmera parada. Ele fica cortando e fazendo movimentos de lente (zoom), ali onde Ford elabora seu plano sequência. Grande Ford – até seus filmes considerados ‘menores’ são obras que têm o que ensinar.