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Luiz Carlos Merten

14 Agosto 2010 | 11h39

GRAMADO – Frio e chuva formam uma combinação fatal que tem se abatido sobre Gramado nos dois últimos dias. Ainda bem que não temos vento, porque aí seria de matar. O sábado é o dia ‘morto’ deste festival. Há apenas um debate – o do último concorrente latino, ‘La Yuma’, da Nicarágua, que começa daqui a pouco -, não existem mais projeções de filmes. Temos apenas que esperar até a noite, pela premiação. E o que se faz, enquanto isso? Come-se – demais, até porque a gastronomia é um dos fortes da oferta turística da serra gaúcha, especialmente Gramado, com seus fondues e a oferta diversificada de carnes exóticas. Desde que iniciaram sua curadoria, há quatro anos, José Carlos Avellar e Sérgio Sanz têm apostado no cinema de autor. Como não acreditam no formato ‘campeonato de filmes’, selecionam as obras capazes de dialogar entre si, ou que exponham uma diversidade de temas, estilos e métodos de produção que sejam interessantes como leque de possibilidades (e, novamente, de discussões). Na competição brasileira, tivemos desde filmes de Majors, com o aporte de marcas fortes como Globo e Lereby (‘Bróder’, de Jefferson De) até obras realizadas com recursos próprios, sem nenhuma lei de patrocínio (‘Diário de Uma Busca’, de Flávia Castro). Eu, de minha parte, se fosse jurado, resolvia a parada entre duas obras de ficção, na competição brasileira – o já citado ‘Bróder’ e ‘Não se Pode Viver sem Amor’, de Jorge Duran. Mas tenho para mim que o júri, com duas mulheres fortes – a diretora Suzana Amaral e a pesquisadora Ivana Bentes -, talvez se incline pelo filme de Flávia, que me pareceu interessante como método, mas do qual nada mais tenho de bom para dizer. Na competição latina, que no geral foi melhor, fico com dois filmes, a ficção ‘El Vuelcro Del Cangrejo’, da Colômbia, e o documentário ‘Mi Vida com Carlos’, do Chile. Para ser honesto comigo mesmo, o filme chileno foi meu favorito de todas as mostras competitivas deste festival, com este filho que viaja em busca da memória do seu pai herói (contra a ditadura de Pinochet) e, no processo, reconstrói a família. É um pouco o caminho inverso do filme brasileiro de Flávia Castro – o pai, no caso, é um anti-herói e a família chega ao final irremediavelmente destroçada, embora os sobreviventes, a mãe e os dois filhos, incluindo a diretora, tenham vindo debater ‘Diário de Uma Busca’ na mesma mesa. Achei a seleção de curtas deste ano pouco estimulante, o que me valeu duras críticas de um dos diretores concorrentes, que me acusou de estar acabando com muitas possibilidades de carreiras, incluindo a dele, por meio de juízos sumários. Compreendo a indignação, mas não creio que faça o gênero ‘crítico destruidor’. Dos 16 curtas que concorrem aos Kikitos, interessaram-me cinco – ‘Os Amigos Bizarros de Ricardinho’, ‘Hazuo Ohara’, ‘Anjos Caídos na Praça’, ‘Ratão’ e ‘As Babás’. Adoro ‘Ricardinho’, que já tinha visto no Recife, e no frigir dos ovos selecionaria, como melhores, o curta de Rodrigo Grota, fecho de sua admirável trilogia sobre Londrina (‘Satori Uso’, ‘Booker Pittman’ e ‘Hazuo…’), e a animação dos ‘Anjos’. Não digo isso para agradar a meu amigo Enéas de Souza, colega de geração na crítica gaúcha, mas amei o filme do filho dele, Fabiano. ‘A Última Estrada da Praia’, livremente adaptado de ‘O Louco do Cati’, de Dyonélio Machado, bem pode ter sido o melhor filme do 38° Festival de Cinema de Gramado. É uma pena que não tenha concorrido ao Kikito na categoria principal, embora esteja habilitado para o prêmio do júri universitário, na mostra Panorama.