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Luiz Carlos Merten

27 Novembro 2007 | 09h31

Termina, também hoje, o evento de cinema digital – Cinéma en Numérique – que ‘Cahiers du Cinéma’ promove no quadro do Festival d”Automne à Paris. As projeções ocorrem no MK2 Bibliothèque. Cito isso porque comentei outro dia o encarte sobre o cinema digital na edição de ‘Cahiers’ de novembro e alguém me pediu que voltasse ao assunto. A chamada da capa é ‘De Brian De Palma à Brice Dellsperger – 40 Films et 6 Instalations’. De Palma estou certo que todos vocês sabem quem é, mas Brice Dellsperger? Cada vez mais ouço falar desse sujeito que incorporou sua paixão de cinéfilo à vocação de videasta e recria cenas famosas de filmes que viraram cults. O próprio De Palma fazia isso no começo de sua carreira e a cena do assassinato de Marion Crane na ducha, em ‘Psicose’, virou fetiche nos primeiros filmes do diretor, que era considerado um plagiador, não um autor (lembram-se?). Mas, enfim, falo desse evento em Paris porque achei uma coisa muito interessante. Em geral, a gente toma – e eu tomo – como referência da nova era digital o Festival de Cannes de 2000, que provocou um grande debate sobre tecnologias e atribuiu a Palma de Ouro (o júri era presidido por Luc Besson) a ‘Dançando no Escuro’, de Lars Von Trier. O encarte de ‘Cahiers’ – ‘Cinéma en Numérique’ – mapeia a história do digital e chega a 1963 como o ano em que foi comercializado o primeiro sistema de registro de imagens em vídeo. Em plena era da câmera Arriflex, esse precursor pesava 30 quilos e o sistema câmera/monitor era vendido por US$ 30 mil. Nos anos seguintes, Andy Warhol, Nam June Paik e Wolf Vostell sistematizaram a videoarte e o cineasta experimental John Whitney desenvolveu um projeto de computador capaz de produzir animações gráficas, que foi absorvido por Stanley Kubrick na realização de ‘2001, Uma Odisséia no Espaço’, em 1968. Nunca entrei no site de ‘Cahiers’ em busca da versão virtual da revista, mas na capa do encarte há um endereço – www.cahiersducinema.com. Pode ser que seja melhor para vocês pesquisarem diretamente, mas a evolução do digital passa pelos efeitos de ‘Westworld’ (de Michael Crichton, 1973), ‘Alien’ (de Ridley Scott, 1979), ‘Blade Runner’ (Ridley Scott, de novo, 1982) e ‘Tron’ (Steven Lisberger, 1982)até chegar a ‘O Fundo do Coração’ (de Francis Ford Coppola, também de 1982) e atingir a perfeição dos efeitos de ‘O Exterminador do Futuro 2’ (de James Cameron, em 1991). A revista minimiza a importância de George Lucas e apenas cita que, em junho de 1999, ‘Star Wars Episódio 1’ foi o primeiro filme distribuído em digital nos EUA (em quatro salas, apenas). Os efeitos de ‘O Senhor dos Anéis’ e a criação digitalizada do Gollum, por Peter Jackson, também é esquecida, mas ‘Cahiers’ relata tudo sobre o Dogma e o uso da mini-DV por Pedro Costa (‘O Quarto de Vanda’), Jean-Luc Godard (‘O Elogio do Amor’) e Abbas Kiarostami (‘Ten’ e ‘Five’). As datas da revista – 1995/99 marca o início da DV e do cinema digital; 2000 é o ano da DV; e o período de 2001/07 democratiza a DV e consolida a nova era digital. Muito interessante, mas agora eu preciso parar porque tenho matérias do dia no ‘Caderno 2’ e, às 10h30, quero ir a uma cabine (ver ‘PQD’, do Guilherme Coelho, que estréia sexta).