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Luiz Carlos Merten

02 Março 2008 | 13h14

Meu programa de ontem, além de almoçar no Bar Brahma, foi assistir a ‘Teresa Vernerdi1, de Vittorio De Sica, à noite, no Centro Cultural São Paulo. O filme integra o ciclo dedicado ao centenário de Anna Magnani. É de 1941, cinco anos antes de ‘Roma, Cidade Aberta’ e Anna já era uma diva, fazendo, com rompantes de estrela, a cantora de vodevil que está depenando pediatra mulherengo (e ele se apaixona por uma das internas do orfanato em que seu pai lhe arranjou um emprego). Confesso que nunca havia assistido aos filmes que De Sica realizou na sua fase anterior ao neo-realismo. Conhecia o De Sica diretor a partir de ‘A Culpa É dos Pais’ (I Bambini ci Guardano), que já tem um recorte social (e antecipa o movimento). “Teresa Venerdi’ seria mais o que na época se chamava de filme dos ‘telefones brancos’. Feitos em estúdio, obedecendo a certas características de tema e estilo – que Dino Risi satirizou em seu filme com este título, de 1976, com Vittorio Gassman e Agostina Belli -, representavam, com os épicos tipo ‘Cipião, o Africano’, a tendência dominante do cinema italiano sob Mussolini. Sob certos aspectos, ‘Teresa Venerdi’ é a negação do De Sica neo-realista ( e até explicaria porque, nos 60, ele virou um diretor comercial a serviço da dupla Sophia Loren/Marcello Mastroianni, em filmes produzidos pelo marido da estrela, Carlo Ponti). Mas tenho de admitir que gostei de ver o filme. Havia uma platéia mesclada, muitos jovens e também pessoas mais velhas, presumo que aposentadas (sem preconceito algum) e que sempre encontram programas atraentes (e de graça) no CCSP. O próprio De Sica faz o pediatra. Era sua fase de galã, De Sica era jovem, magro, tinha um sorriso cativante. No filme, existe um trio de credores que ameaça fazer leilão de seus bens para quitar as dívidas. São meio ‘três patetas’. Cada vez que apareciam, a platéia quase morria de rir. Achei contagioso e, lá pelas tantas, estava rindo também (e me achando meio debilóide). Já que falei de ‘Teresa Venerdi’ e do De Sica galã e comediante, não custa lembrar que, nos anos 50, já vencedor de seu primeiro Oscar (por ‘Vítimas da Tormenta’/Sciuscià, em 1947), ele virou um estereótipo, o italiano bonachão, mais ou menos o que Maurice Chevalier representava como ‘francês made in Hollywood’. Acho que o grande papel do De Sica ator foi em ‘De Crápula a Herói’ (Il Generale de La Rovere), que também é, tenho de admitir, o Rossellini do meu coração. Mas eu adorava o De Sica como o ‘mareschiallo’ da série ‘Pão, Amor e …’, iniciada por Luigi Comencini, acho que em 1953. Viajei no tempo e saí do CCSP fazendo um arco da história do cinema italiano que me deixou levinho…

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