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Cultura » Terceira (ou quarta?) idade

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Luiz Carlos Merten

19 Setembro 2007 | 17h38

Quando vocês lerem amanhã a matéria do Festival do Rio no Caderno 2, vão ver que eu me permiti uma gracinha. Falei nos jovens talentos, nas expectativas, mas também saudei o fato de que o festival vai mostrar filmes de velhinhos duros de roer. Entre o jovem Tarantino de Proof Death e o velho Manoel de Oliveira de Belle Toujours, sou mais o segundo e o Oliveira terá além da sua retomada de A Bela da Tarde, já vista na Mostra do ano passado, outro filme na programação – Cristóvão Colombo. (Aliás, desculpe, Pedrita, mas agora que escrevi o nome do Colombo me lembrei do teu comentário sobre Bressane e sua Cleópatra. Sem essa de reser va de mercado para heróis brasileiros. Acho até que a releitura da rainha do Nilo – e do poder imperial de César – rende uma reflexão que pode ser muito interessante sobre culturas periféricas e o poder central, que tem tudo a ver com o que ocorre hoje no mundo, mesmo que seja um mundo diferente daquele do antigo Império Romano. Fábio Negro também me desculpe, mas por que o desdém em relação a Bressane? Se é filme dele, não vou ver, diz o Fábio. Pois vá, cara, vá.) O Oliveira é um dos velhinhos, portanto. Ele faz 100 anos no que vem. É duro na queda como o Niemeyer, outro centenário (este, já feito) ilustre. Perto deles, uma verdadeira criança – tem ‘apenas ‘ 92 anos – Mario Monicelli também terá um filme no Panorama do Cinema Mundial, Le Rose del Deserto. Fui comentar com o Zanin, meu colega Luiz Zanin Oricchio, se este filme estava em Veneza, ele disse que não e aproveitou para me contar uma história que vocês talvez já conheçam, se freqüentam o blog dele. Monicelli, mesmo sem filme, estava em Veneza, para prestigiar o festival, hospedado no Hotel des Bains, onde meu amado Visconti filmou Morte em Veneza (que não é um de meus filmes favoritos). Zanin contou que Monicelli teve uma queda no banheiro que causou comoção no Lido. Certamente ainda aturdidos com a morte de Antonioni e Bergman, os cinéfilos estavam esperando o pior, mas, no dia seguinte, lá estava o Monicelli, lépido e faceiro, dando entrevistas e fazendo gracinhas com as moças (que o velho é o maior rabo-de-saia). Entrevistei uma vez o Monicelli em Veneza. Foi duro extrair alguma coisa dele, que me atirava na cara, a toda hora, que detesta críticos e jornalistas porque não pagam ingresso e ele faz cinema para o público pagante. Sensacional! Como já paguei minha cota de ingressos de filmes de Monicelli, quero dizer que adoro suas comédias, é verdade que menos do que reverencio as melhores de Dino Risi. Guardas e Ladrões, Os Eternos Desconhecidos, A Grande Guerra, O Incrível Exército de Brancaleone e uma da qual ninguém gosta muito, Romance Popular, com Ugo Tognazzi e Ornella Muti, são minhas favoritas, entre as comédias de Monicelli. Acho genial toda aquela parte na decadente corte de Bizâncio, em Brancaleone, com a hilária participação da cult Barbara Steele, mais mórbida do que em qualquer filme de horror de que tenha participado (com exceção, talvez, do magnífico A Maldição do Demônio, de Mario Bava). Ah, sim, estava me esquecendo de Parente É Serpente. Mas há um filme do Monicelli, um drama, que nunca mais revi. I Compagni, Os Companheiros, de 1963, virou um dos filmes cults dos anos 60, quando entrei na faculdade (primeiro na de Arquitetura), em Porto Alegre. Mastroianni fazia aquele agitador socialista – o professor Sinigaglia – que ia preparando greves por toda Itália, no fim do século 19 e o filme ainda tinha Annie Girardot, Renato Salvatori e Folco Lulli. Claro que no Brasil da ditadura militar, Os Companheiros virou um filme non grato. Até onde me lembro, era muito bom. Não creio que tenha sido lançado em DVD no Brasil, pois se foi eu perdi (e não acredito que perderia um filme que tanto me marcou nos meus verdes anos). Fernando Brito, da Versátil, bem poderia resgatar este e outros grandes filmes do Monicelli. Quanto a mim, espero me divertir com Le Rose del Deserto, no Rio.