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Luiz Carlos Merten

16 Junho 2010 | 13h52

Acabo de ver ‘Kick Ass’, mas antes de falar sobre o filme que estreia sexta permitam-me encarar outros assuntos que me parecem mais interessantes. Quando fiz aqueles posts para lembrar os 80 anos de Clint Eastwood, debrucei-me, necessariamente, sobre a carreira do xerife de Hollywood. Lembrei seus filmes com Don Siegel. Grande diretor de ação, Siegel fez filmes caracteristicamente de gênero com o astro – policiais como ‘Meu Nome É Coogan’ e ‘Perseguidor Implacável’, westerns como ‘Os Abutres Têm Fome’ e até um filme de cadeia (‘Fuga de Alcatraz’). Tenho para mim que o melhor dos cinco filmes de Siegel com Clint foi o terceiro, ‘O Estranho Que Nós Amamos’ (The Beguiled), que também é o mais difícil de catalogar. Clint faz soldado ferido que, durante a Guerra Civil norte-americana, busca abrigo num internato feminino cuja diretora é Geraldine Page. Sua presença alvoroça professoras e alunas, ‘libera’ desejos reprimidos e pensamentos inconfessáveis.  Siegel, não sei se vocês sabem, recebeu educação religiosa das mais puritanas. Partindo desse pressuposto, não surpreende que ‘O Estranho’, entre todos os seus filmes, costume ser associado a… Luis Buñuel.  O filme de ‘ação’ passa a explorar grilhões psicológicos, envereda pela perversidade. O ferimento do personagem de Clint piora e ele passa por uma castração simbólica que, na verdade, é uma amputação real. Na mesma época, Buñuel andava fazendo ‘Tristana’, que revi em Cannes Classics e é bem impressionante – e com outra amputação -, mas não mais que o cult de Siegel (e Clint). Sempre gostei muito de ‘O Estranho Que Nós Amamos’, o mais estranho dos filmes da dupla e que, com certeza, influenciou especialmente a estreia de Clint no longa, que ocorreu em seguida – ‘Perversa Paixão’ (Play Misty For Me) é de 1971 e foi feito na sequência de ‘The Beguiled’. Por que estou lembrando do filme? Por dois motivos. ‘O Estranho Que Nós Amamos’ passa hoje – na verdade, está passando agora – no Telecine Cult, canal em que será reprisado na madrugada de quinta para sexta. E eu descobri que o filme está à venda, baratinho, por menos de R$ 20, na 2001 Vídeo. Vale a pena ter (e ver).