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Tênue limite entre o sublime e o tédio

Luiz Carlos Merten

31 Outubro 2006 | 17h38

Ocorre amanhã de manhã a reunião que vai definir o prêmio da crítica da Mostra. Tenho minhas preferências – por Hamaca Paraguaya, principalmente, e por Honor de Cavalleria. Estou saindo agora para ver, em DVD, Mary, de Abel Ferrara, que perdi nas suas três apresentações, mas sei que existe um movimento forte para consagrar. Pode ser legal, retirar Ferrara do limbo em que se ele se jogou, transgredindo mais na vida (com todo tipo de droga) do que no cinema (onde, talvez por influência, acabou fazendo algumas drogas, também). E há o caso Pedro Costa, com Juventude em Marcha, que vi em Cannes. Foi uma das raras vezes em que estivemos de acordo, o Pedro Butcher e eu. Gostamos. A definição do Pedro, aliás, foi divertida. Estávamos juntos, alguém, não me lembro quem, perguntou pelo filme e o Pedro, para definir o clima, disse que o outro Pedro, o Costa, era tão parado que fazia o Manoel de Oliveira parecer um videoclipe. Justamente o Oliveira. Achei legal a vinheta da Mostra, feita a partir do desenho do Velho, mas sou forçado a dar razão aos que consideram a vinheta estressante, dizendo que ela, na sua vertigem, é a própria negação do cinema do grande mestre português. Isso posto, volto ao Pedro Costa e a Juventude em Marcha, que é um dos filmes mais exigentes a que assisti, nos últimos tempos. Gosto, como já disse, mas confesso que é uma admiração fria, um ato intelectual. Não há juventude e, menos ainda, em marcha, no filme que trata desse cabo-verdiano que vive em Lisboa, entre passado e presente e entre a favela de Fontainha e os novos bairros de apartamentos populares criados pelo governo, sobre monturos de lixo, para acomodar os excluídos. A favela tem mais vida do que essas paredes brancas que encerram personagens que falam monocordicamente sobre coisas que ocorreram no passado. Falam sem saudade, sem emoção, como se o passado estivesse morto e o futuro não trouxesse esperança. Uma vida, ou vidas, no limbo. Todo o filme tem essa qualidade, ou essa característica. Juventude em Marcha, o título, era o mesmo de um hino associado à independência de Cabo Verde, antiga colônia africana de Portugal. Ventura é o protagonista, um homem maduro, interpretado por um não profissional e ligado a todos esses infelizes que passam a ser, metaforicamente, seus filhos. Pedro Costa não comunga dos ideais de Bresson (a ascese), mas parece realizar o sonho do grande Robert (paredes brancas e vozes sem expressão). Há uma questão importante no filme – o que as pessoas dizem, no dialeto muitas vezes incompreensível? Há outra, que talvez seja mais importante ainda – onde colocar a câmera, como filmar, como construir o olhar? Mais que pelos temas, Juventude em Marcha me pareceu mais interessante pelas questões estéticas que propõe. É, caracteristicamente, um filme de crítica e por isso pode até ganhar o prêmio da categoria, na Mostra. Vou contar uma história, juro que sem querer influenciar ninguém. Estava ontem à noite no Arteplex, peguei o elevador para descer. Desciam duas senhoras, duas velhinhas. Comentavam um filme do qual gostaram muito. Perguntei qual era? Hamaca Paraguaya. Elas se comoveram com o casal de protagonistas. Haviam visto outro filme que detestaram. Qual? Juventude em Marcha. Acharam muito chato. Na verdade, há um limite muito tênue entre o sublime e o tédio em Juventude em Marcha.