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Luiz Carlos Merten

07 Novembro 2006 | 09h48

No aeroporto, voltando de Nova York, comprei a edição de outubro de Cahiers du Cinéma. No Brasil, a revista chega às bancas (só uma ou outra em São Paulo) com grande atraso. Nem me lembro direito a capa, um novo filme com Romain Durys e Louis Garrel, Dans Paris, ou alguma coisa assim. Em compensação, lá dentro encontrei duas matérias que me interessaram muito. Cahiers pirou com a celebração radical do cinema de autor no recente Festival de Veneza, que terminou com a vitória de Still Life, de Zhia Jang-ke. O filme foi prejudicado por uma sessão toda torta na Mostra de São Paulo. Como não sei se o filme será lançado ou não, de minha parte preferi ver Still Life assim a não ver de maneira alguma. Amei o filme, embora precise rever um dia, aqui ou em outra parte, para saber se aquele quadro dentro do quadro, em uma cena chave, é proposta do diretor ou se foi acidente de projeção. É raro uma publicação francesa dedicar espaço a um festival italiano. Cahiers normalmente ignora Veneza ou lhe dá uma pagininha. Desta vez são três e embutida no texto está a crítica ao projeto do prefeito de Roma de transformar a cidade que é chamada de eterna no palco do maior festival europeu (como ele pretende). Roma celebra as estrelas de Hollywood. Veneza, os autores. Viro mais algumas páginas de Cahiers e, ainda bem que estou sentado – teria caído duro, se não estivesse. Cahiers dedica mais duas páginas a um filme de Valerio Zurlini que é cult total, para mim. Era muito jovem quando assisti a Verão Violento e nunca esqueci a intensidade da ligação entre os personagens de Eleonora Rossi Drago e Jean-Louis Trintignant. Cahiers coloca o filme na transição entre o cinema italiano pós-pós-realista e a nouvelle vague que irrompia na França (e em todo o mundo), como uma afirmação do poder aos jovens. Itália, 1943, a praia. Os jovens vivem um verão que, malgrado a guerra (ou por ela) será tão importante para eles. Trintignant envolve-se com Eleonora, cujo marido foi para a guerra. Dançam Temptation de rosto colado. Ao fundo, explodem as bombas. Nunca houve representação mais forte do desejo, para mim. Eleonora tem aquela mãe, interpretada por Lilla Brignone, que foi depois a mãe de Monica Vitti em O Eclipse. Eleonora e a mãe brigam por causa do affair dela. Eleonora pede respeito, diz que é uma senhora. Lilla, nunca esqueci a frase, diz as palavras duras – Allora, comportati come una signora. Não sei se escrevo direito, mas são cenas que carrego comigo. Fazem parte das minhas emoções no cinema. O romantismo de Zurlini era uma coisa maravilhosa de descobrir aos 15/16 anos, como eu o fiz. Escrevi outro dia que Carlos Reichenbach e eu só estávamos de acordo no amor pelo Scarface, do Brian De Palma (quando De Palma ainda era bom). Foi o que o Carlão escreveu na dedicatória do livro dele na coleção Aplauso, da Imprensa Oficial, quando fui cumprimentá-lo numa tarde ou noite de autógrafos, nem me lembro mais. Não é verdade. Mais até do que De Palma, amamos Zurlini. O meu preferido é Verão Violento.