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Luiz Carlos Merten

20 Novembro 2009 | 09h46

Nem tive tempo de postar, ontem. Havia chegado de Brasília em cima da hora programada para o início da sessão de ‘Lua Nova’, na terça-feira. Só que o horário anunciado não era o real e eu mofei esperando mais de hora para ver o filme com uma plateia de adolescentes histéricas e bofinhos idem. Sério, gente – nunca vi uma plateia feminina como aquela. (A masculina também, quando Jacob, o lobisomem, tirava a camisa e mostrava o tanquinho, mas deixa pra lá.) Robert Pattinson entrou em cena, caminhando em câmera lenta em direção a Bella – e nós, o público, compartilhávamos o ponto de vista dela –; o cinema veio abaixo. No final, ele faz uma pergunta à garota. De novo o cinema veio abaixo e, na saída, havia uma centena de meninas chorando, juro! Antônio Gonçalves Filho já havia analisado no ‘Caderno 2’ o significado desses vampiros de classe média, nem de longe transgressores como os da grande tradição do gênero de horror. Acho curioso assinalar que Stephenie Meyer, que criou a série ‘Crepúsculo’, é professora de literatura – como Erich Segal, que, há 40 anos, criou outro fenômeno literário que virou filme, o hoje esquecido (graças a Deus!) ‘Love Story’. Ambos, Stephenie e Segal, foram beber na fonte de ‘Romeu e Julieta’. O enfoque é romântico, o filme é um permanente coito interrompido. Vampiro chupando sangue? Coisa mais antiga! Edward (Pattinson) recita Shakespeare. Ficam, Bella e ele, discutindo o amor eterno. É um príncipe encantado, o que Edward quer é casar. Coisa mais careta. Mas, enfim, não serei eu a jogar pedras. ‘Lua Nova’ não precisa ser avaliado como ‘filme’. O que importa é seu efeito sobre o público teen. Em Brasília, quando dizia que estava voltando para São Paulo para ver o filme, todo mundo torcia o nariz. Eu vou, vejo. Não gosto, mas é tendência e, como tal, me interessa. Aproveito e atendo ao pedido que um leitor me fez. Ele estranhou que ‘2012’ tenha recebido a classificação ‘regular’ no ‘Caderno 2’. O filme de Roland Emmerich é horrível, como ‘Lua Nova’, sob certos – ou múltiplos – aspectos, também é. Mas os efeitos de ‘2012’ são impressionantes e, mais realistas do que aquilo, só mesmo se as profecias maias se cumprirem e o mundo acabar daqui a três anos, o que espero não ver (porque não vai ocorrer, tóc, tóc, tóc). A dramaturgia, como se diz, do filme de Emmerich é rasa. Tudo aquilo só para uma família se reunir e uma menininha resolver seu problema de xixi na cama. Mas é interessante. Além de um formidável sucesso de público em todo o mundo, ‘2012’ coloca questões que não podem passar despercebidas. Os velhos disaster movies, nos anos 1970, foram produzidos numa época de crise da sociedade dos EUA. Guerra do Vietnã, escândalo de Watergate. Havia uma forte contestação da autoridade, que emanava das ruas, onde ocorriam protestos. Os disasters movies sempre colocavam o problema da autoridade – ameaçada e reconstituída. Policiais, bombeiros, religiosos, era um cinema de restauração (da ordem). A autoridade continua em discussão, mas agora é a figura do pai. O próprio político, Danny Glover – o presidente negro –, é um pai benevolente, da filha como do povo, por quem se sacrifica. O pai, John Cusack, precisa reconquistar o respeito do filho. Nada disso, ‘Lua Nova’ como ‘2012’, é ‘arte’, mas é tendência. Sou a favor de que se vejam esses filmes, mas olhem – aquele vampiro lânguido não mexeu comigo, não.