Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » ‘Tempos de Paz’

Cultura

Luiz Carlos Merten

17 Julho 2009 | 09h52

Vai ser um post imenso, aviso. Havia visto duas vezes a peça de Bosco Brasil, ‘Novas Diretrizes em Tempos de Paz’. Sou um apaixonado pelo texto. Na primeira vez, no Teatro Ágora, vivi uma experiência curiosíssima. Sou carnavalesco doente, todo mundo sabe, mas vi a peça num fim de semana de carnaval, com uma barulheira do cão lá fora (e que de alguma forma se infiltrava na sala, pequena, formatada para montagens minimalistas). Viagei no texto, e principalmente nas interpretações de Dan Stulbach e Jairo Mattos. O texto trata desse imigrante polonês que desembarca no Brasil no dia em que Getúlio Vargas liberta os presos políticos, 18 de abril de 1945. Ele chega cheio de esperança, esperando reconstruir a vida, mas choca-se com o funcionário da polícia política, acostumado a seguir ordens e que agora aguarda as novas diretrizes para o mundo pós-nazismo e pós-Estado Novo. O imigrante era ator na Europa, mas, descrente da força do teatro para traduzir o indizível – o horror da guerra e do aviltamento do homem pelo nazismo –, ele resolve ser agricultor no Brasil. Só que o confronto se encaminha para um desafio e ele só poderá permanecer no País se fizer chorar o burocrata. E isso só vai conseguir reassumindo-se como ator. O texto faz referências a ‘Titus Andronicus’ e a ‘A Vida É Sonho’, a Shakespeare e Calderón, mas no filme de Daniel Filho até mais do que na montagem original, senti a presença de outro Shakespeare. A fala do imigrante para arrancar a lágrima salvadora me lembra Shylock, de ‘O Mercador de Veneza’. Havia amado o texto, o meticuloso trabalho de construção da palavra – era uma diretora, não me lembro quem – por meio de um elaborado trabalho de interpretação. Revi ‘Novas Diretrizes’ quando Tony Ramos substituiu Jairo Mattos. O teatro era o Renaissance, Tony, por mais sério que seja, é um global e a sua simples presença no palco despertava um frissom no público. Lembro-me que, quando ele entrava no palco, sua primeira fala não era cômica, mas o público riu como se tivesse dito uma piada. Vai dar m…, pensei comigo. Quando Daniel Filho anunciou que ia filmar ‘Tempos de Paz’ com Tony Ramos, fui injusto e pensei – o cinema vai imortalizar a interpretação errada. Na verdade, Daniel deu um presente a Tony. Permitiu-lhe não corrigir sua interpretação, porque não é o caso, mas tirou aquela aura que a presença do ator carregava no palco e deu-lhe a chance de mostrar, se ainda é preciso, o ator poderoso que é. ‘Tempos de Paz’ foi feito rapidamente, como opção estética. O visual do filme, de certa forma, é tosco, mas não por descuido. Tudo aquilo – a cenografia, a fotografia, os efeitos – me pareceu muito elaborado. Não é a imagem que deve seduzir o público. O solo da dupla de protagonistas abre-se para a contribuição de outros atores, incluindo Daniel Filho como o médico que o personagem de Tony torturou nas masmorras da ditadura e aquele homem, do qual ele destruiu as mãos, havia sido o salvador de sua irmã. A fábula é novamente sobre a força reificadora da palavra, um filme celebrando o teatro. Acho que, se alguém quiser procurar os defeitos de ‘Tempos de Paz’, nem será tão difícil enumerá-los. Mas o ganho é maior. Terminada a projeção, haveria uma coletiva que foi atropelada pelo início da cerimônia de premiação do 2º Festival de Paulínia. Não assisti à premiação, e até agora não sei quem ganhou, um pouco por que não havia assistido a todos os filmes da competição. Mas também não fiquei para a coletiva. Falei rapidamente com Daniel Filho, com Tony Ramos. Fugi. Peguei o carro do jornal e vim pela estrada, de noite, totalmente imerso no choque do texto que o filme, adaptado pelo próprio Bosco Brasil, potencializou. O cinema tem essa coisa maravilhosa. A câmera coloca o espectador onde ele não pode estar, no teatro. A mão de Dan Stulbach, surgindo por trás daquela mesa em que ele se esconde, realiza um desenho no ar que magnetiza Tony Ramos (e o espectador). Tanto quanto o mistério da voz, ficamos presos ao gesto. As mãos, justamente. Decepadas de Daniel Filho, ela se reconstróem na magia do homem que descobre que não pode deixar de ser ator. Está condenado a isso. Quando a lágrima de Tony rola e molha o salvo-conduto, o espectador está ali no centro da ação. Há uma mudança de eixo em relação à montagem. Temo despertar demasiada expectativa em quem for ver ‘Tempos de Paz’. De minha parte, valeu a pena ir a Paulínia, ontem.