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Luiz Carlos Merten

26 Novembro 2008 | 10h45

Não posso me queixar. Mesmo com dor, tenho assistido a filmes que fazem parte da minha memória afetiva e cultural. Ao rever ‘O Intrépido General Custer’, de Raoul Walsh, em DVD, foi como se uma madeleine me projetasse aos seus verdes anos, quando assisti pela primeira vez ao filme no antigo Carlos Gomes, na Rua Vigário José Ináscio, em Porto Alegre. Quando Walsh fez sua obra-prima, em 1941, um ano emblemático – remember ‘Cidadão Kane’ -, Custer ainda era considerado o herói. Somente mais tarde, o revisionismo histórico desmontou-o da lenda e mostrou- como deve ver sido – um monstro sanguinário, preocupado com a própria carreira e sem nenhukm respeito pela cultura dos peles-vermermelhas, que Errol Flynn, galantemente, na ficção, tenta preservar. Ocorreu a mesma coisa com Wyatt Earp, conselheiro artístico de westerns, que contou a John Ford sua versão do tiroteio do OK Corral, que o mestre transformou em ‘Paixão dos Fortes’ (My Darling Clementine). Nenhum dos dois filmes, o de Walsh nem o de Ford, corresponde à realidade. São fantasias, mas como disse o próprio Ford, por meio do editor (Edmond O’Brien) em ‘O Homem Que Matou o Facínora’, quando a lenda supera a realidade, ‘print the legend’. Devia estar muito fragilizado quando revi ‘O Intrépido General Custer’ (They Died with Their Boots On) anteontem, mas lavei minha alma chorasndo com aquela construução do herói – e da heroína. O cinema criou grandes duplas – Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, Bogart e Lauren Bacall, John Wayne e Maureen O’Hara, Clark Gable e Vivien Leigh, Spancert Tracy e Katharine Hepburn etc. Tantas, tantas, mas a que eu carrego no meu coração é a formada por Errol Flynn e Olivia De Havilland, no filme de Walsh, mais do que em qualquer outro que fizeram juntos. Na despedida, quando ele sabe que vai morrer em Little Big Horn e diz que foi privilégio compartilhar a vida dela, a câmera colocada sobre o ombro de Flynn – ele está de costas – afasta-se num travelling e Olivia cai desmaiada. Não conheço coisa mais bela. Também nunca havia mechamado a atenção uma coisa que é até óbvia. Com todo aquele amor, Custer e sua amada não têm filhos. Talvez fosse convenção hollywoodiana, talvez fosse verdade histórica – não sei -, mas isso reforça os laços com a família ca Cavalaria e, agora me dou conta, faz parte da mitologia do filme. Talvez seja tolice de velho, talvez, pelo contrário, nunca deixei de ser – um pouco, pelo menos – o adolescente que viu naquela idealização romântica das relações uma coisa muito forte, a ponto de me marcar tanto. Anos mais tarde, na Faculdade de Arquitetura, escrevi minha primeira crítica e foi sobre outro western – o último – de Raoul Walsh, “Um Clarim ao Longe’, agora com Troy Donahue e Suzanne Pleshette, mas a essência da história (a defesa do índio, a devoção da mulher, o sacrifício do homem) tudo isso estava presente de novo. Continuo escrevendo sem óculos. Me perdoem os erros. Essas viagens talvez os aborreçam. A mim fazem bem. Me devolvem o apetitite de escrever.