Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Tempo reencontrado

Cultura

Luiz Carlos Merten

04 Outubro 2009 | 12h56

RIO – Queria postar alguma coisa rapidinho sobre ‘Antes Que o Mundo Acabe’, para ir almoçar e cumprir meus numerosos compromissos de hoje, que incluem filmes, mediação no debate de ‘Histórias de Amor Duram 90 Minutos’, o longa de estreia de Paulo Halm, e até uma ida ao teatro, porque hoje é a minha chance de ver o ‘Moby Dick’ de Aderbal Freire Filho, adaptado da obra de Herman Melville. Sentei-me, outro dia, ao lado de Domingos Oliveira, numa das sessões da Première Brasil, no Cine Odeon – estavam Priscilla Rozembaum e ele -, e o Domingos me disse que, se gosto de teatro, não poderia perder a montagem do Aderbal. É o que pretendo fazer, mas antes pretendia manifestar meu amor pelo filme de minha conterrânea, Ana Luiza Azevedo. Gostei demais – ‘Antes Que Mundo Acabe’ é o melhor longa da Casa de Cinema de Porto Alegre, melhor do que qualquer um de Jorge Furtado, por quem tive sempre uma expectativa muito forte; afinal, ‘Ilha das Flores’… -, mas o filme vai ter de esperar. Morreu Mercedes Soza e eu não posso deixar de postar alguma coisa sobre La Negra. Acho até que postei alguma coisa no fim de semana passado. Havia visto o documentário sobre o rock brasileiro na mostra Música, da Première Brasil, e me dei conta de como aquele universo roqueiro era estranho para mim. No fim dos anos 60 e início dos 70, sempre que podia eu estava na estrada, viajando pela América Latina. Minha ex, Doris Bittencourt, e eu percorremos quase toda Argentina, Chile, Peru e Bolívia. Beatles e Rolling Stones eram referências geracionais, mas eu confesso que me ligava muito mais na canção de protesto ou de raiz de Mercedes Soza, Victor Jara, Atahualpa Yupanqui, Quilapayun etc. Amava Violeta Parra sobre todas as coisas, mas a gravação definitiva de ‘Gracias a la Vida’, para mim, não é a de Elis Regina nem a de Mercedes Soza, e sim a de Isabel Parra, que só de pensar me arripia. Mas eu amava Mercedes, sim, a quem vi algumas vezes, no auge, em Buenos Aires, cantando em teatro, sob a ditadura, e no Brasil, também sob a ditadura, no Beira-Rio. Aconteceu uma coisa louca comigo, no show do Beira-Rio. Estava na pista, as pessoas se levantavam na minha frente e eu subi na cadeira para poder ver La Negra. O cara atrás de mim me puxou, tentando me derrubar, para que eu sentasse, eu o mandei àquele lugar e terminamos brigando a socos… Eu! Doris entrou na parada, coisa mais doida. Adorava ver Mercedes cantar ‘Duerme Negrito’ e ‘Alfonsina y el Mar’, que também integra um disco, ‘Mujeres Argentinas’, de Amelita Baltar. Procurem na internet. Essa canção é de uma beleza… Há um momento de ‘O Tempo e o Vento’, a obra-prima de Erico Verissimo, em que Vasco, vindo da Guerra Civil Espanhola, descreve para Floriano, o narrador, e para Tio Bicho o impacto que teve sobre ele a presença da Passionária, que viu discursar para multidões republicanas. O relato é tão apaixonado que o cético Tio Bicho termina comentando para Floriano que o comunista, que odiava a Igreja, teve ali sua visão mística e Nossa Senhora se consubstanciou na Passionária. Eu contando isso não sou nada, mas o Erico! É maravilhoso. Sabem por que lembro isso? Porque Mercedes Soza foi a Passionária da música latina e do sonho da América Nuestra, por volta de 1970. Auto-ironizando, poderia dizer que tive, ao vê-la, a mesma emoção de Vasco. Mercedes Soza era a minha Nossa Senhora musical, e não apenas minha. Aquelas multidões fervorosas em Buenos Aires, em Porto… A construção da minha latinidade passa, necessariamente, por ela. Foi uma grande artista e, não por acaso, artistas viscerais, como Elis e Milton Nascimento se ligaram em Mercedes, que carregava, na alma e na voz, a dor dos nativos de Latino América, que padeceram séculos de escravidão e submissão colonial. Imagino que esteja sendo piegas e que muita gente até poderá me achar ridículo, mas quem viu e ouviu Mercedes Soza há 40 anos, como eu, não se esquece daquela emoção. Ela gostava de cantar envolta em mantos indígenas. Pejorativamente, diziam (os reaças?) que encarnava a geração chamada de ‘conga y poncho’. Pejorativamente, não. Acho que era carinhosamente, não os reaças. Quando Mercedes soltava a voz para celebrar ‘Gracias a la Vida’, qué me ha dado tanto… Vai, Mercedes. Tua voz está eternizada em gravações. E, mesmo se desparecessem os vinis e CDs, eu ainda te ouviria cantar duerme duerme negrito, qué tu mama está en el campo.