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Cultura » Tempo perdido, autor reencontrado

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Luiz Carlos Merten

13 Outubro 2006 | 08h31

Não tenho nenhum gancho para a história que pretendo contar, exceto o que me disse Laís Bodanzky no set de Chega de Saudade, que visitei no outro dia. A Laís me contou que os primeiros dias foram estressantes para ela. Nunca havia trabalhado com o fotógrafo Walter Carvalho, não tinha storyboard, fazia um filme com dezenas de casais dançando num salão. Estava, senão insegura, apreensiva e tinha de aparentar calma, segurança, controle da situação, pois é isso que se espera de um diretor – que seja o comandante no set. Lembrei-me dessa velha história do Losey. Em 1948, quando fez seu primeiro longa, O Menino dos Olhos Verdes (resgatado em DVD pela Aurora), Joseph Losey já tinha um currículo ilustre. Teria estudado cinema com Eisenstein em Moscou (lenda que ele nunca desmentiu), trabalhou com Bertolt Brecht no teatro e, por seus curtas, chegou a ganhar o Oscar da categoria (com A Gun in His Gun, em 1945). Mas Losey ficou aterrado no seu primeiro dia como diretor, no set. O produtor Dore Schary, um cara progressista de esquerda, numa Hollywood de direita, lhe disse – vá lá e faça o que quiser, mas sem hesitar, com toda segurança. Se sair ruim, eu prometo que a gente refaz, mas não demonstre que não sabe o que quer. A equipe é de profissionais e você vai perder o respeito deles, se não souber. Losey foi, fez e o seu filme até hoje é considerado uma alegoria forte sobre a guerra e o preconceito racial, tendo contribuído para que ele entrasse para a lista negra do macarthismo. Losey teve até de se exilar, fazendo filmes sob pseudônimo na Europa (Andrea Forzano foi um deles), até recuperar a própria identidade e poder realizar, na Inglaterra, seus filmes autorais. Há um bloco muito denso formado por Entrevista com a Morte e Armadilha a Sangue, mas o meu Losey começa com Eva, com Jeanne Moreau, prossegue com a parceria com Harold Pinter – só que eu, ao contrário da maioria, prefiro Estranho Acidente a O Criado – e chega aos pináculos de Cerimônia Secreta, com Elizabeth Taylor e Mia Farrow, O Mensageiro (que ganhou a Palma de Ouro), Monsieur Klein, com Alain Delon, o mais borgesiano dos filmes (embora não seja adaptado de Jorge Luis Borges), e Don Giovanni, o maior de todos os filmes de ópera. Losey, com Visconti, Minnelli e Godard, era um dos autores preferidos de Jefferson Barros, grande crítico gaúcho que morreu prematuramente. O barroquismo de Losey (o abre e fecha das portas de Cerimônia Secreta, que formam uma ratoeira para as personagens de Liz e Mia, antecipando a história do ratinho sobrevivente, no desfecho), a importância atribuída por ele à luta de classes (coisa rara num autor americano) e, ao mesmo tempo, a análise dura dos choques entre os indivíduos e os sexos (Losey nunca acreditou que homens e mulheres pudessem ter relações honestas, ou sinceras; no cinema dele, a luta de classes é levada para a cama), tudo isso faz desse cara um cineasta fundamental e, no entanto, tenho certeza de que pouca gente conhece, hoje em dia, a obra dele. Losey e Visconti, dois marxistas (e o primeiro também um brechtiano), odiaram-se no fim da vida. Ambos tinham o projeto de filmar Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust. Seriam filmes grandiosos, caros. Nem um nem outro logrou concretizá-lo. Um atribuía ao outro o peso da impossibilidade. Toda a obra de Losey é uma busca proustiana do tempo perdido, mas o que Losey fez em O Mensageiro também mostra o que poderia ser o seu Proust (com roteiro de Pinter). Nunca li, mas quem conhece diz que o roteiro do Pinter para o que seria Em Busca do Tempo Perdido, de Losey, é uma perfeição. Deve ter contribuído para que ele ganhasse o Prêmio Nobel de Literatura, no ano passado. E nada disso, nem o roteiro nem os filmes do Losey, estão ao alcance do público. É uma pena, para não dizer uma vergonha.