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Tempo de (in)certeza

Luiz Carlos Merten

13 Maio 2012 | 11h22

Embora tenha ficado cerca de duas horas com Peter Greenaway, acompanhando-o na visita à Cinemateca e lá realizando a entrevista que a TV Estado deve ter reduzido para 3 ou 4 minutos, sinto que ainda não fiz com ele a entrevista que poderia, ou gostaria. A que está no ‘Caderno 2’ de hoje é legal, mas Greenaway gosta sempre de lembrar as origens populares do cinema, que nasceu na feira. Aliás, lembrando as origens do cinema, é muito divertido vê-lo falar de ‘A Invenção de Hugo Cabret’, de Martin Scorsese. Ele arrasa com o filme (e o diretor). Não consegui ainda aprofundar essa história com o Greenaway, embora tenha falado com ele diversas vezes, mas ele acha que um dos fracassos do cinema, com toda essa sofisticação atual de técnica, está na sua recusa e até impossibilidade de seguir sendo popular. Greenaway acha que o ingresso é caro e que, na Europa, só a burguesia continua frequentando as salas. Virou uma diversão de elite, mas quando ele critica essa elitização critica também o cinema dito autoral, baseado em referências clássicas, muitas vezes literárias, e no qual a palavra reina sobre a imagem. É uma discussão complexa, interessante e é curioso que Greenaway, no fundo, d~E razão aos jovens contra os quais reclamei no Recife, aquela garotada que, na fila em frente à minha, nem perdia tempo olhando para a tela que projetava ‘Paraísos Artificiais’. Estavam no celular, mandando mensagens. Greenaway não acredita na ditadura da tela, no que chama de ‘aquário iluminado’, todo mundo sentadonho, olhando para a frente. Ele quer um cinema interativo, multimídia, mas isso ainda assusta o público e é… Vamos usar a palavra: elitista. São questões muito interessantes, e voltando a ‘Paraísos Artificiais’, o filme dos jovens, das raves, da música eletrônica, apesar de sua sofisticação audiovisual, está afugentando o público e se arrisca a fazer menos do que ‘Xingu’, cuja justificativa é a de que brasileiro não gosta de índio. Tudo isso é muito instrigante e perturbador. E gira sempre em torno de uma questão – o que é o cinema, neste (ainda) limiar do século 21? Tenho cada vez menos certezas. Não acredito em ficar preso a velhos conceitos, e menos ainda aplicados ao cinema dito de ‘autor’. Como antena e vitrine da modernidade, o que Cannes vai mostrar, a partir de quarta-feira?