Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Tempo de Espera

Cultura

Luiz Carlos Merten

26 Fevereiro 2007 | 12h32

Não falei nada sobre o Oscar especial concedido ao Ennio Morricone, mas acho que terminou fornecendo a grande metáfora da festa que entrou pela madrugada. Confesso que tenho preguiça de procurar essas coisas na internet, mas estava pensando se Clint Eastwood seria chamado para entregar o prêmio do grande Ennio. Foi – e minha metáfora começa ali. Nos anos 60, após uma primeira carreira na TV americana (com a série Rawhide), o jovem Clint foi estrelar no México a série de spaghetti westerns que Sergio Leone fez com música de Ennio Morricone. Há um tema da espera que é essencial naquelas óperas barrocas da dupla Leone/Morricone. O duelo era sempre precedido de planos de detalhes que dilatavam o tempo, ao som da música. Acho que não é chutar dizer que o tema da espera volta a ser essencial no díptico de Clint sobre a batalha de Iwo Jima, principalmente em Cartas, que concorreu aos Oscars de melhor filme e direção. Os japoneses do general Kuribayashi cavam seus túneis e se enfurnam neles, à espera do ataque da frota americana à praia de Iwo Jima. É curioso que Clint tenha feito, com Cartas, seu filme japonês – porque o primeiro western de Leone, Por Um Punhado de Dólares, era justamente uma transposição de Yojimbo, de Akira Kurosawa, para aquele Oeste selvagem que o cinema industrial italiano construiu na Espanha, nos anos 60, mais exatamente em Almeria, onde se passava a maioria dos spaghetti westerns. Influência japonesa, espera. Só me dei conta agora da ponte que se construiu graças às presenças de Clint e Ennio naquele palco. E pode-se ir adiante. Scorsese esperou décadas para ganhar seu Oscar de direção e quando ele veio, ontem, não foi um prêmio de carreira, como seria se Os Infiltrados não tivesse recebido a contrapartida da estatueta de melhor filme. Foi uma vitória completa – melhor filme, direção, montagem e roteiro. Cinema é montagem, dizia Kubrick, mas no cinemão de Hollywood há sempre a crença de que o verdadeiro autor do filme é o roteirista. Scorsese, com Os Infiltrados, ganhou tudo – ou o que interessava. Esperou por isso, como Clint esperava pelo duelo nos westerns de Leone. Só acho que Scorsese esperou demais. Acho que merecia por Touro Indomável, por Depois de Horas, por Os Bons Companheiros. Vou ver mais uma vez (a quarta) Os Infiltrados. Vamos ver se, com essa nova leitura, acho o filme mais interessante. Nem foi por causa da vitória de Os Infiltrados – que não esperava, ao contrário do prêmio de direção –, que me aborreci e até indignei com o Oscar. O engodo do Oscar hispânico, a cerimônia que parecia não ter fim, aquilo acabou comigo. Havia ali, também, uma espera para mim. E ela foi frustrada porque gostasria de ter visto a academia ousar mais. Ainda não foi desta vez, apesar de algumas tiradas interessantes da pouco engraçada Ellen De Generes e do triunfo pessoal de Al Gore naquele palco – mas até que ponto isso vai influenciar alguma coisa na política dos EUA?