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Luiz Carlos Merten

08 Junho 2008 | 18h01

Saí ontem do Espaço Unibanco quase 2 da tarde e fui almoçar com minha filha e genro. Por volta das 5, pouco antes, estava no Centro e fui conferir o que havia na retrospectiva de Maio de 68 do Cine Olido. Assisdti a meu segundo Godard do dia, ‘Onde Plus One’, Um + Um. O caminho aqui foi o inverso ao de ‘O Pequeno Soldado’, não que tenha acabado o tempo da reflexão, mas o tempo, aqui, é de ação, com certeza. Foi uma experiência e tanto. As sessões do Olido são gratuitas e a sala estava lotada. Uma platéia eclética, desde jovens estudantes até gente carregada de pacotes, que obviamente estava querendo curtir um cineminha de graça, antes de voltar para casa. Do meu lado sentou-se um cara que não vou dizer que era morador de rua, porque pode parecer preconceito, mas talvez fosse. O cara tirou um cochilo fenomenal. Dormiu de roncar. O público foi saindo, aos montes e, no final, foi divertido acompanhar os comentários. A maioria admitia ter sido um saco ou não ter entendido nada, ao contrário da platéia do Espaço Unibanco, que saiu em silêncio, menos alguns jovens que teorizavam sobre o arauto da nouvelle vague. ‘One Plus One’ é um filme/colagem que alterna as cenas dos Rolling Stones no estúdio, gravando ‘Sympathy for the Devil’, com um discurso antifascista em três etapas, todas misturadas. As cenas dos Panteras Negras, as da livraria nazista e a grua final, quando ‘Um + Um’ vira 2, um filme dentro do filme. Adorei a repetição dos Stones no estúdio – um cara disse que parecia disco estragado, preso numa faixa – e, para o meu gosto, aquelas cenas, muito bem filmadas, sem interferência nenhuma do autor, são um dos ápices do cinema sobre rock. (Não vou falar de Martin Scorsese, também com os Stones, prometo.) As cenas dos Panteras, teorizando sobre a revolução e o poder negro, me remeteram a ‘Efeito Dominó’ (e até me fizeram gostar ainda mais do filme de Roger Donaldson com Jason Sthatham). As da livraria nazista são as mais hilárias, com todas aquelas capas de livros e revistas de super-heróis e gostosas desnudas. Godard sempre bateu forte no consumismo e na alienação que já percebia na chamada ‘cultura de massas’ (lembram-se dos filhos de Marx e da Coca-Cola em ‘Masculino-Feminino’?). Tudo muito interessante, e muito descontínuo, o que me devolve a Glauber, mas ‘O Dragão’ vai ficar, agora sim, para amanhã.