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Cultura » Tema do herói e do covarde

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Luiz Carlos Merten

20 Janeiro 2012 | 23h07

Há um assunto que tem estado no meu imaginário durante toda a semana, mas que não consegui encontrar a forma de abordar. O naufrágio do transatlântico na Itália e o incrível diálogo do capitão com o superintendente marítimo, em que o segundo ordena ao primeiro que volte à embarcação e socorra os passageiros que abandonou. Tenho pensado muito num dos filmes – e livros – cults da minha vidas. ‘Lord Jim’, que Richard Brooks adaptou do romance de Joseph Conrad, com Peter O’Toole. Nunca li original, em inglês, nem que fosse para avaliar a tradução de Mário Quintana para aquele magnífico parágrafo final, quando o narrador diz que Jim, depois de se reencontrar no sacrifício purificador, desaparece numa nuvem. Sai o homem de cena, cria-se o mito. Não sei, mas se neste momento me fosse dada a possibilidade de escolher, entre toda a literatura, que página gostaria de ter escrito, é aquela. Isso me ocorre com frequência, embora às vezes mude minha escolha. Existem momentos em que poderia ser Fabrizio del Dongo atravessando o campo de batalha em ‘A Cartuxa de Parma’, de Stendhal. Ou então a digressão machadiana, quando o narrador, arrependido de ter matado a borboleta preta, pergunta-se por que ela não era azul?  Jim, na ficção de Conrad – e de Brooks -, arruina sua vida num momento de covardia, de fraqueza. Quando seu navio, o Patna, sofre uma avaria no casco, ele antecipa o naufrágio e foge, abandonando os peregrinos, passageiros da embarcação, à própria sorte. Os passageiros se salvam, Jim vira um pária, fugindo de todos – e de si mesmo. Só se reencontra ao liderar a rebelião em Patusan. E Peter O’Toole tem um monólogo lindo – quando sabe que vai morrer, como Errol Flynn ao se despedir da mulher, Olivia de Havilland, em ‘O Intrépido General Custer’. Ele também sabe que vai morrer e diz aquela frase galante à companheira, na obra-prima de Raoul Walsh, que foi um privilégio viver ao lado dela, e a chama de ‘madame’. O’Toole, falando para a garota, que também sabe que vai perdê-lo – e a atriz é a linda Daliah Lavi -, diz que só poderia ser ali. Patusan, Patna + us (nós). Cumpre-se o seu destino. Lembrei-me disso imediatamente, ao ouvir aquele diálogo. Aquele capitão será um personagem trágico, como Jim, ou repetirá a história de Conrad como farsa? Jim me fascina porque é o homem comum, que não está à altura do padrão que estabeleceu para si mesmo. Mas ele vai perseguir esse padrão até se purgar. Vai morrer como herói, redimindo-se do covarde que foi. John Huston, em ‘O Emblema Rubro da Coragem’, adasptado do livro de Stephen Crane, e Bernardo Bertolucci, em ‘A Estratégia da Aranha’, que se baseia no ‘Tema do Herói e do Traidor’, de Jorge Luis Borges, também abordaram o tema, o abismo que separa a coragem da covardia, o heroísmo da vilania, e mostraram (todos) que não há um abismo, mas um limite muito tênue. Confesso que essa história me oprime, por suas conexões literárias e cinematográficas.