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Luiz Carlos Merten

10 Outubro 2009 | 00h43

PARATY – Pronto, pela procedência vocês já sabem onde estou. Vim a Paraty, que iniciou hoje seu festival de cinema, para mediar um debate amanhã. Vai ser num barco, ‘Navegar é preciso, filmar também é preciso’. Marcelo Gomes está aqui, mostrando ‘Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo’. Espero que participe desse encontro. ‘Natimorto’, grande injustiçado no Festival do Rio, terá sessão amanhã (sábado) à noite e eu gostaria que Paulo Machline também estivesse aqui, e no debate. Foi uma viagem complicada, desde o Rio. Me diziam que Paraty está a três horas e meia, no máximo quatro, do Rio. Mas chovia muito, o carro que me transportava pegou a Avenida Brasil parada e a viagem demorou seis – seis! – horas. Havia tentado acrescentar mais um post, sobre ‘Bastardos Inglórios’, antes de viajar, mas na hora de salvar o texto sumiu. Que m…! Vou tentar resgatá-lo. Hoje pela manhã – quando salvar este texto já será sábado, mas comecei a redigi-lo no finalzinho de sexta -, tinha o programa na Eldorado AM. Falei sobre a estreia do novo Quentin Tarantino e o Daniel Piza me perguntou, à queima-roupa, se eu tinha alguma explicação para o fato de o diretor haver seguido uma trajetória tão irregular, desde ‘Pulp Fiction’ (Tempo de Violência). Tarantino surgiu como a grande promessa, o grande renovador do cinema norte-americano, em meados dos anos 1990. Lembro-me perfeitamente. Foi em Cannes, 1993. Paulo de Góes, mais antenado que eu, me convenceu a acompanhá-lo a ver o filme de um diretor desconhecido. O filme chamava-se ‘Reservoir Dogs’, Cães de Aluguel. A coletiva, pelos padrõres de Cannes, foi um fracasso. Havia uma meia dúzia de jornalistas para falar com o tal de Tarantino. Quando ele voltou a Cannes, já consagrado, com ‘Tempo de Violência’, e o filme ganhou a Palma de Ouro, não dava mais para falar com Tarantino – aonde ele ia, havia sempre um batalhão de jornalistas. O que fazia de Tarantino um autor tão especial? Tarantino pegava gêneros tradicionais, ou um gênero tradicional, o policial, e o renovava por meio de uma direção de cena forte, mas eu tenho a impressão de que o que realmente fascinava em ‘Reservoir Dogs’ e ‘Pulp Fiction’ era o diálogo. Tarantino nunca foi uma unanimidade. Lembro-me de que Khouri, meu querido Walter Hugo, o via como o coveiro do cinema, pelo menos o cinema de que ele gostava, e que eu também gosto, o de Ingmar Bergman e Josef Von Sternberg. Khouri intuiu que Tarantino teria inúmeros seguidores/admiradores e sua violência visceral poderia se tornar nauseante. Por que Tarantino perdeu o rumo, se é que perdeu? Dei a resposta mais fácil para o Piza, mas não estou muito seguro de que seja a verdadeira – a associação de Tarantino com o cineasta tex-mex Robert Rodriguez foi nociva para ele. Com Rodriguez, Tarantino cedeu ao pior do cinema de gêneros, fazendo da arte da referência a única razão de ser de filmes que não consigo entender (como o seu ‘Estrada qualquer-coisa’). Mas eu sei que não foi apenas isso. Tarantino talvez tenha sido atropelado por seu sucesso. Público, crítica, festivais como Cannes, o maior do mundo, publicações como ‘Cahiers du Cinéma’, a revista de cinema, queira-se ou não, mais influente do planeta, todos começaram a colocar pilha em Tarantino. Ele próprio sempre disse que seu gosto de cinéfilo foi moldado na locadora em que trabalhava e na qual via tudo, os clássicos como o trash. Acho, estou chutando, que o mito de Tarantino talvez venha daí. Uma nova geração cansou-se de ouvir dizer que a bíblia do cinema estava em Eisenstein e Orson Welles. ‘Potemkin’ ou ‘Cidadão Kane’, qual o maior filme de todos os tempos? Tarantino liberou espectadores para que se distanciassem desses ‘clássicos’. F… o Hausbaum, que diz que que a sequência da escadaria de Odessa é a mais influente de todos os tempos. Era, agora sou eu dizendo, mas depois veio o assassinato na ducha em ‘Psicose’ e, montagem por montagem, Hitchcock radicalizou (desconstruiu?) Eisenstein e o cinema nunca mais foi o mesmo. Tarantino criou um selo para divulgar os filmes que gostava, de diretores obscuros. O ‘Inglorious Bastards’ original, de Enzo G. Castellari, foi lançado nos EUA em DVD duplo, incluindo uma longa entrevista de Tarantino com o diretor. Qual foi o crítico que, no final dos anos 1970, se dignou a prestar atenção em Castellari? Quero agora acrescentar que meu Tarantino preferido é ‘Jackie Brown’ e, se eu tivesse de escolher uma só cena como a melhor de Quentin, seria aquela em que Pam Grioer avança para a câmera, vista por Robert Forster. Nenhum diálogo, nenhuma ação violenta – ou seja, nada ‘tarantinesco’. Apenas um homem, uma mulher e a música substituindo as palavras. Nada é dito, mas tudo fica subentendido, sobre a natureza do desejo. ‘Bastardos’ era um projeto de cerca de dez anos de Tarantino. Por que ele queria contar tanto essa história de vingança? Por suas referências? Talvez… O filme remete a Robert Aldrich e a J. Lee Thompson, a ‘Os Doze Condenados’ como a ‘Os Canhões de Navarone’, sem perder de vista Castellari, ‘Quelo Maledetto Treno Blindato’. O que os dirty dozen fazem, eles fazem ‘dirtier’, dizia o cartaz de ‘Inglorious Bastards’, com Bo Svenson – o filme de Tarantino, a propósito, chama-se ‘Inglorious Basterds’, com E. Já vi o filme inteiro duas vezes e a cena inicial, o primeiro capítulo – ‘Era Uma Vez, na França Ocupada…’ -, quatro vezes. Aquilo é uma Bíblia. Acho aquele diálogo o máximo. Christoph Waltz, o coronel Hans Landa, visita a fazenda de M. Lapadite, em busca de judeus ali escondidos, e inicia aquela conversa sobre leite, e as filhas e as vacas de Lapadite, e também sobre os judeus e os ratos. Aquilo é maravilhoso, e existe a música, ‘The Green Leaves of Summer’, usada operisticamente, à Sergio Leone. ‘Bastardos’ fala de vingança, sentimento primitivo, como o amor. Não creio que tenha entendido corretamente sua metáfora, quando vi o filme em Cannes, pela primeira vez. ‘Bastardos’ foi projetado digitslmente. Cannes tem sido a grande vitrine das novas tecnologias e eu vi o filme como metáfora da morte do cinema trasdicional, o celuloide. É o contrário. O celuloide vira combustível, o cinema tradicional é explosivo como dinamite e serve de estopim para a vingança de Shoshana. Tarantino não veio ao Brasil, mas em Cannes entrevistei-os todos, menos Brad Pitt, que só deu uma coletiva. Tarantino, Eli Roth, Christoph Waltz, Diane Kruger, Mélanie Laurent… Foram quase três horas de entrevistas, e num festival como Cannes, onde você está sempre perdendo uma meia-dúzia de grandes filmes. Não me arrependo. Foram conversas reveladoras, como o filme. Tarantino poderia proclamar, como Abraham Polonsky – ‘Tell them Willie Boy is here’. Tell them Tarantino is back. Ele voltou… É tarde, preciso dormir. A viagem, como se diz, me ‘exauriu’. Amanhã, a gente volta.