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Luiz Carlos Merten

13 Fevereiro 2007 | 05h48

BERLIM – Havia perdido ontem a sessao de imprensa de Les Temoins, mas foi, como escrevi, por uma boa causa, para entrevistar Ken Watanabe, o general Kuribayashi de Cartas de Iwo Jima, que estreia sexta no Brasil. AA noite, fui assistir ao filme de Andre Techine, que, com apresentacao do diretor e do elenco, terminou 1 e tanto da manhah. Nao tinha cobdicoes de postar ao chegar ao hotel, ateh porque tinha de levantar cedo. Estou indo ver o argentino El Otro, o outro latinmo da competicao. Techine eh um enigma para mim. Entrevistei-o tres vezes e achei-o interessante, inteligente, mas frio, incapaz de estabelecer a minima empatia, caracteristicas que achjo que se transmitem ao cxinema que ele fez. Cahiers du Cinema o adora e lhe dah capa regularmente. Sao paginas e paginas de analises que nao consigo entender. Acho que se trata de uma supervalorizacao. Mas Techine, ele proprio, eh uma figura. Homossexual assumido, ele coloca o tema com frequencias nos filmes que realiza, filmando homens e homens, mulheres e mulher na intimidade com uma franqueza que deve desafiar os tabus da sociedade francesa e contribuir para o status que Cahiers lhe confere. Les Temoins eh um filme sobre os primordios da aida. Divide-se em tres capitulos – Os Belos Anos, A Guerra e O Novo Verao. O primeiro eh o do sexo selvagem, quando este garoto chega a Paris e vira objeto de desejo de um medico, que o introduz em seu circulo de amigos, que inclui uma escritora de livros infantis e seu marido, um policial, de quem o rapaz se torna amante. Imagino que, na Franca, deva ser um choque ver um machao como Sami Daoujila, um dos atores de Dias de Gloria, reconhecido como machao, deixar-se possuir (por amor, como ele diz) pelo garoto (que retruca – eh o que todos dizem, que eh por amor). A guerra trata da descoberta da aids e dos efeitos devastadores da doenca. O garoto contrai o virus, a descoberta do adulterio e a possibilidade da doenca colocam o casal (e a amizade com o medico) em crise. O terceiro capitulo, O Novo Verao, trata do recomeco – novos medicamentos, novos amores, mas como em toda guerra muitas vitimas ficaram para tras. Tive amigos que morreram de aids e alguns deles me fazem falta ateh hoje. Sao pessoas de quem tenho saudade, que eram inteligentes, cheias de vida. Lembro que, quando morreram, de vitimas da doenca passaram a carrascos deles mesmos, porque na propria havia uma acusacao aa sua `promiscuidade`. Mas vai saber o que se passa na cabeca das pessoas, quais as suas necessidades intimas, a sua tristeza interior, o vazio que se preenche com um prazer fugaz. Nao sei nem o que dizer do filme de Techine. Quando soube do que se tratava, achei que ia ver o filme mais visceral do autor. Que visceral, que nada. O velho Techine de sempre. Falta sempre alguma coisa. Um pouco de alma, talvez?