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Cultura » Teatro, muito teatro

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Luiz Carlos Merten

25 Junho 2007 | 08h50

Cheguei seco para escrever um post, mas fui ler os comentários e deixo para depois. Vai ser o próximo. Medeiros, meu amigo, se ficares cobrando meus erros é melhor criar um formato padrão, porque aí tu só copias e não precisa nem redigir. Não é que eu despreze a informação correta, mas se há uma coisa que não tenho paciência é de pesquisar quando estou no blog. E, depois, pode parecer presunção, mas me interessa mais o conceito, o pensamento macro, que é o meu. Detalhes de datas, de nomes, são de domínio público. Qualquer um me corrige. Agora, o que eu penso sobre determinados assuntos independe desses detalhes – que são importantes, reconheço. Não vou nem me desculpar. Henrique, tu não estás errado, não. Achaste que eu ia gostar da Javanesa. Eu gostei! Aliás, tive um fim de semana só de teatro. Na sexta, vi A Javanesa; no sábado, Álbum de Família; e, ontem, Educação Sentimental de Um Vampiro. Vi Javanesa sentado na frente do autor, Alcydes Nogueira, a quem não via desde que o entrevistei (e a Maria Adelaide Amaral) por Um Só Coração, a minissérie da Globo. Achei muito legal aquela coisa de mostrar uma relação do ângulo dele, e dela, e fazer com que as duas personagens, o homem e a mulher, sejam interpretados pelo mesmo ator, Leopoldo Pacheco. Gostei dele, que se fragiliza, sem ficar veado, e faz o macho sem virar brucutu. E a iluminação do espetáculo é linda! Álbum de Família tem mais problemas e eu acho que eles começam pela própria peça do Nelson Rodrigues. Quem sou eu para falar do Nelson, nosso maior dramaturgo! Ele é gênio. Mas Álbum de Família não é o melhor Nelson, ou pelo menos não me parece. Dividido em cenas, o Álbum começa muito bem e tem um desenho muito forte de personagens – o patriarca, que tem fixação na filha mas não comete o incesto, preferindo deflorar menininhas da idade dela; a mãe que, ela sim, comete o incesto. A família é o centro de todo horror para Nelson. Acho que o desfecho é meio débil, mas gostei da montagem, acho que até mais pelos defeitos. O palco daquele teatrinho na Praça Rossevelt é estreito, o pé direito é muito alto, o que cria problemas de espaço e iluminação. Mas gostei da maneira como o diretor asborda o texto, sem sacralizá-lo, e gostei da Denise Weinberg, como a mãe, embora gostar da Denise já seja pleonasmo. Na Educação do Vampiro, o que mais me impressionou foi a platéia. Sempre me impressiona ver, no Teatro do Sesi, aquela garotada que, sem preconceito nenhum, não é dos Jardins. Cometo eu, agora, um ato de preconceito – os jovens dos Jardins deviam estar no shopping. Havia, ali, muita garotada de periferia. Na saída, havia quase uma fila indiana, muita gente saindo diretamente para a estação de metrô, que fica em frente. E depois dizem que jovem é alienado, não quer saber de cultura! Não quer saber uma ova! Toda generalização éurra. Se um, ou muitos, não querem, não sitgnifica que todos não queiram. Os vampiros de Dalton Trevisan são criações do imaginário do escritor que, com eles, exorciza os horrores da classe média. A concepção de personagem da Educação está mais próxima da de Nelson Rodrigues que do texto do Alcydes Nogueira. Não gostava muito das coisas que o diretor Felipe Hirsh faz. Mas gostei da Educação Sentimental do Vampiro. Achei a concepção visual muito interessante e o elenco, muito corajoso, ao se expor daquele jeito no palco. Dizem que, para ser ator ou atriz, o sujeito não tem de ter vergonha do corpo, que é um instrumento de trabalho. Não me refiro à nudez física, e à nudez tratada como grotesco, mas à nudez emocional, moral que é muito mais difícil de assumir, apesar da frase do Truffaut em Jules et Jim, quando o amigo de Jules pede a Deus que o poupe da dor física, porque da dor moral se ocupa ele. A montagem é muito interessante, exceto por um fato. É muito longa. Dura duas horas cravadas, divididas em esquetes. Vários se repetem. Uma redução das cenas e uma ordenação melhor da sua evolução poderiam potencializar o espetáculo, levando-o a um desfecho mais forte. Mas gostei do meu fim de semana de teatro. Agora quero ver A Gaivota, do Enrique Diaz, o irmão de Chico. Achei genial o Ensaio Hamlet que ele dirigiu. Espero que o Enrique me reproduza a emoção.