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Teatro da Justiça

Luiz Carlos Merten

10 Março 2010 | 11h11

Pertenço a uma geração que discutia os filmes de Costa-Gavras com a mesma veemência com que ele fazia suas denúncias políticas. Tive a sorte de encontrá-lo no aeroporto (Tegel), quando volta do Festival de Berlim e ouvir dele, com exclusividade, por que seu júri premiara ‘Tropa de Elite’, de José Padilha. ‘Cahiers du Cinéma’ achou aquele Urso de Ouro ‘nauseabundo’. Meu primeiro Costa-Gavras foi o thriller ‘Compartiment Tueurs’, o primeiro filme que ele fez e que passou no Brasil como ‘Crime no Carro Dormitório’, com o casal Montand/Signoret. Depois veio ‘Un Homme de Trop’ (Tropa de Choque), ainda antes de ‘Z’. Terminei assistindo a ‘Z’ no exterior, não me lembro se no Uruguai ou na Argentina. No Brasil, estava proibido pelo regime militar e, embora os países vizinhos também vivessem sob ditaduras, eles tinham pelo menos naquela época, uma tradição cinematográfica mais libertária que a nossa. Lembro-me da indignação de uma amiga – comunista – quando saímos do Cacique, que exibiu, em ‘Porto’, ‘A Confissão’. Ambos os filmes, ‘Z’ e ‘A Confissão’, eram como as duas faces da mesma moeda, atacando ditaduras à esquerda e à direita, mas os militares, proibindo o primeiro e liberando (com cortes) o segundo, desfavoreciam a simetria sonhada pelo diretor. Minha amiga achava o fim aquele cara (Costa) servir de instrumento para os militares atacarem a esquerda internacional. mesmo quando ‘Z’ foi liberado e Costa-Gavras fez, depois, ‘Estado de Sítio’, a intelectualidade de esquerda continuou batendo. Seu cinema era ‘reformista’, criticava indivíduos e o abuso do poder, mas não ‘o’ poder. Para completar, o formato de ‘thriller’, com direito a catarse, era ‘alienante’. Quanto ouvi isso! Quanto Costa-Gavras ouviu isso! Anos mais tarde, ele ganhou a Palma de Ouro com ‘Missing, o Desaparecido, Um Grande Mistério’. O filme não era mais uma denúncia da ditadura chilena – o famigerado Pinochet –, mas uma investigação sobre a intervenção norte-americana no Chile . Fiquei siderado com a força daquela cena em que o cavalo branco irrompe na noite, durante o toque de recolher, e é perseguido pelos soldados que disparam suas metralhadoras. O cavalo branco, metáfora de liberdade. A perseguição, a (ir)racionalidade da repressão. ‘Missing’ ganhou a Palma de 1982, dividida com o turco ‘Yol’, de Yalmaz Guney. Deve ter estreado aqui em 83. Em 81, vi ‘Seção Especial de Justiça’ no antigo Ritz, que havia sido Petrópolis, em Porto. O melhor e mais rigoroso filme do diretor. Os anteriores, de alguma forma, eram épicos políticos. ‘Seção Especial’ é outra coisa. O tema em discussão é o Judiciário sob a ditadura. Passa-se na França ocupada e retrata com crueza o teatro jurídico e a brutalidade política ocultos nos chamados discursos ‘legais’. Em represália pelo assassinato de um de seus generais, os nazistas pretendem executar juízes e advogados em grande escala. Os ministros e procuradores do governo de Vichy – o marechal Pétain –montam uma farsa para executar seis pessoas e aliviar a pressão alemã. Seria uma solução do tipo ‘dos males, o menor’, mas os fascistas aproveitam para incluir na legislação uma cláusula retroativa – a lei poderia ser aplicada até em crimes cometidos antes de sua promulgação. Costa-Gavras filma o interior dos gabinetes em que os advogados do poder conspiram contra a própria Justiça. Lento, frio (e melancólico), seu filme, como disse certa vez José Onofre, é uma demorada exposição do medo sobre as consciências. O cenário, o ambiente, presta-se a um tipo de enfoque – palácios e gabinetes que expõem o projeto de grandeza da burguesia servem de quadro para personagens que representam o oposto, a pusilanimidade. Essa oposição – riqueza de ambientes/pobreza de gestos e decisões – fornece o próprio conceito da mise-en-scène, mas o filme também tem um roteiro muito forte de Jorge Semprun. Não há propriamente uma história para ser contada, mas outra, a ‘História’, para ser refletida. Os personagens não são heróis, positivos ou negativos, nem são portadores dos atributos psicológicos que conduzem as receitas habituais de ação (e que o próprio Costa já seguira em ‘Z’ e ‘A Confissão’). Neste sentido, a cena do poço, no teatro, é exemplar. Há uma representação da ópera ‘Alexander Godunov’. O que o diretor mostra não revela o tema da ópera, mas expõe uma forma de ‘representação’ e, no fundo, é disso que ‘Seção Especial’ vai falar – do teatro da Justiça, da legalidade como mera representação de fachada. Mais tarde, quando os ministros se reúnem para debater (e aprovar) a proposta de lei, eles o fazem num hotel. estão ali suposdtamente para fazer uma coisa, mas tomam banhos de lama, frequentam a sauna, mais preocupados com a aparência pessoal do que com o corpo da lei. Há até um efeito cômico – o ministro da Justiça interrompe suas atividades para ajudar a mulher que persegue a galinha que fugiu. Lembrei-me disso e a cena, nunca me ocorreu de perguntar a Fernando Meirelles, pode estar na origem – mas estará mesmo? – da perseguição à galinha na abertura de ‘Cidade de Deus’. Faz tempo que não vejo ‘Seção Especial de Justiça’. O filme foi (co)produzido por Jacques Perrin, que também é um dos atores. Será um bom programa no Olido, às 17h30m, na sexta.

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