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Tardieu e o cinema, por Eduardo Tolentino

Luiz Carlos Merten

04 Abril 2018 | 22h07

Embora não tenhamos intimidade alguma além dos encontros ocasionais no saguão das salas que apresentam suas peças, sinto que um elo de amizade me liga a Eduardo Tolentino. É um grande diretor de teatro, pertencente, como Gabriel Villela, à casta dos encenadores autores. E são homens de imensa cultura, eruditos cujo conhecimento é tão entranhado que eles transmitem com a maior leveza. Nenhuma pose, se entendem o que quero dizer. Tolentino escreveu esse texto que o Dib Carneiro me repassou. Tem a ver com os posts que escrevi sobre as peças que compunham a trilogia do Teatro do Absurdo, no Teatro da Aliança Francesa. Faço algumas conexões dos espetáculos com filmes e autores de cinema e o Tolentino me retrucou com essa joia que publico, concedendo-lhe o crédito e lembrando que a série Que Absurdo ainda vai até dia 15.
“Antes de mais nada queria dizer como todos ficaram contentes por vocês terem voltado dois dias depois para ver “Uma peça por outra”. É claro que adoramos os dois textos que o Merten escreveu, mas vocês voltarem logo para completar o ciclo do absurdo foi simbólico e especial.
À propósito de Jean Tardieu e cinema: Em “Fantasma da Liberdade” tem uma cena, em que durante uma recepção, personagens sentados em privadas perguntam com discrição ao criado, onde podem comer. A cena é uma clara citação à “Um gesto por outro”, uma das peças curtas de Tardieu que fez parte da primeira coletânea que dirigi e, agora, foi suprimida pelo Brian e Guilherme. A partir daí fui encontrando várias referências na cinematografia do Cão Andaluz ao pré-absurdista francês. Acredito que as primeiras influências de Tardieu, assim como de Ionesco, sejam Vitrac e Jarry, portanto, com fortes ligações ao Surrealismo, daí o elo entre os dois. Quando Martin Essilin cunhou o termo ‘Absurdo’, criando uma filiação entre autores distintos que nunca pensaram em associação a um movimento ou manifesto, talvez essa referência primitiva tenha se perdido. O justo incensamento de Ionesco e Becket relegou Tardieu a uma posição subalterna dos linguistas franceses, dos quais fazem parte Boris Vian, Queneau de “Você vai ver o que você vai ver” (primeiro sucesso do Gabriel) e Prevért, esse com autonomia conquistada por suas colaborações com Marcel Carné e, sobretudo, pelas vozes de Juliette Greco e Ives Montand. No entanto, foi esquecido que essas peças de Tardieu foram anteriores aos primeiros passos dos dois monstros sagrados do absurdo. Todos os elementos de ‘A lição’ já estão como esboço em ‘A polidez inútil’ de Tardieu, escrita quatro anos antes. Enfim, era só para ser uma referência de Tardieu com o cinema para reiterar e estabelecer raízes com as analogias que o Merten fez ao Eclipse e Blow-up. Paro por aqui, porque se começo a abrir janelas, acabou o domingo.” A trilogia segue em cartaz e é um regalo de brilho, humor e inteligência. Vejam!