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Tarantino, Haneke, Dhalia… É mole?

Luiz Carlos Merten

22 Maio 2009 | 13h55

CANNES – Pode ser masoquismo, como, aliás, me disse Charlotte Gainsbourg que foi, sua decisão de fazer aquele papel num filme tão duro quanto o de Lars Von Trier. Sem dúvida que sei quem é Charlotte Rampling, até porque consegui entrevistá-la mais de uma vez no Festival do Rio e numa delas a própria Charlotte me chamou para repetir a entrevista, porque não estava se sentindo bem, havia respondido burocraticamente e sentira um interesse muito grande de minha parte por seus papéis em filmes de Visconti e Liliana Cavani. Só isso dá a medida de como essa mulher é especial. Se errei o nome de Charlotte Gainsbourg, atriz de ‘Anti-Christ’, é justamente porque Charlotte, para mim, automaticamente é a outra. Não é uma desculpa para o que fiz com a filha de Jane Birkin aqui no blog, mas talvez seja masoquismo de minha parte, como foi da dela participar do filme, porque deixo a bola quicando para que muitos de vocês me esculhambem. Paciência. Isso faz parte de nossa relação e eu confesso que acho engraçado quando vocês vão à forra. Quero dar uma geral. Assisti pela manhã a só um pedaço do filme de Terry Gilliam, ‘The Imaginarium of Doctor Parnassus’, porque tinha de sair para entrevistar a gangue de Quentin Tarantino. Tive de entrevistar todo o elenco – menos Brad Pitt -, mas valeu a pena porque Tarantino foi ótimo. Ele me confirmou que, sim, Enzo G. Castellari deu-lhe o título, ‘Inglorious Basterds’, e a inspiração para as cenas em câmera lenta, que o diretor italiano, como Sam Peckinpah, adorava utilizar, mas a essência vem de um filme que amo, ‘Os Doze Condenados’ (The Dirty Dozen), de Robert Aldrich. Ele próprio colocou dessa maneira – queria fazer ‘Dirty Dozen’, mas aí a influência do spaghetti western se surperpôs (ainda tem acento?) e resultou no filme que vi aqui no 62º festival. Depois da banda de Tarantino, corri para entrevistar Michael Haneke e, na sequencia, Heitor Dhalia, cujo ‘À Deriva’ foi muito aplaudido, mas tenho de confessar, não sem tristeza, que não me tocou. Só depois dessas entrevistas encadeadas pude redigir meus textos para a edição de amanhã do ‘Caderno 2’. Tenho de escolher agora o que ver. Gaspar Noë? Kleber Mendonça, que chegou agora aqui na sala de imprensa, depois de assistir a ‘Enter the Void’, disse que é o pior filme que viu desde que cobre o festival. Pior do que ‘Irreversível’? Acho que vou ver agora ‘The Map of the Sounds of Tokyo’, de Isabel Coixet, para poder assistir a ‘Morrer como Um Homem’, de João Pedro Rodrigues, às dez da noite. Com isso, vou perder ‘Ajami’, na Quinzena dos Realizadores, e eu estava louco para ver esse filme dirigido a quatro mãos por um israelense e um palestino, até como contraponto ao Suleiman, do qual gostei tanto. Em Cannes, a gente é forçado a fazer escolhas o tempo todo. Espero fazer as certas para encerrar bem esse dia que foi muito rico no contato com todos esses autores.