Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Tarantino e o abismo geracional

Cultura

Luiz Carlos Merten

27 Agosto 2007 | 18h24

Havia comprado a edição de julho/agosto de Cahiers du Cinéma no aeroporto de Milão, a caminho de Israel. Juliette Binoche está na capa e os perfis dela de grandes diretores – perfis comentados e desenhados, pois Juliette é uma grande desenhista – são muito legais. A atriz acaba de filmar com Amos Gitai e se prepara para iniciar o novo Kiarostami. Seu último filme já estreado (no Festival de Cannes) é Le Voyage du Ballon Rouge, de Hou Hsiao Hsien, do qual gostei muito, mas sou suspeito – amo esse diretor ainda pouco conhecido no Brasil e que fez filmes como Millenium Mambo e Three Times (este é maravilhoso, contando três histórias que formam uma só, desenrolada em diferentes épocas). Pois bem –- comprei ontem, na banca da esquina da Ipiranga com São Luiz, no Centro de São Paulo, a Cahiers anterior, de junho, pós Festival de Cannes. Jake Gyllenhaal está na capa, numa foto de Zodíaco, de David Fincher, que a revista põe nas nuvens (o filme merece), mas o destaque é a entrevista (imensa) com Quentin Tarantino, que não li, mas vou ler só para repercutir. Já contei para vocês – havia gostado muito de Cães de Aluguel e Tempo de Violência e até dei ao livro que escrevi para a Editora Artes & Ofícios, de Porto Alegre, em 1995, o título de Cinema – Um Zapping de Lumière a Tarantino. Walter Hugo Khouri me dizia que Tarantino era fogo de palha. Para mim, foi. Dez anos depois, quando outra editora, a Movimento, quis reeditar o livro, eu andava tão desgostoso com Tarantino que propus outro livro, Cinema – Entre a Realidade e o Artifício (e a editora topou). Tarantino me decepcionou. Achei Jackie Brown legal, me diverti com Kill Bill, mas a parceria dele com Robert Rodriguez me esgotou e mostrou que Tarantino não era o grande autor que eu imaginava. Ele exibiu em Cannes, em maio, Boulevard de la Mort (em inglês – Grindhouse: Death Proof), que eu achei uma debilidade mental. Meu amigo Rodrigo Fonseca, do Globo, diz que é uma atitude geracional – ele adorou, ou seja, passei meu atestado de velhice. Fazer o quê? O tempo passa para todo mundo, tem de passar para mim também, mas se para ser jovem eu tiver de gostar de A Estrada da Morte (será que vai se chamar assim?), prefiro assumir que sou um senhor de 60 anos. Quero ler, também, na tal Cahiers, a mesa-redonda que a revista organizou para debater o Festival de Cannes. Pode ser bem interessante. Mas já quero deixar registradas duas informações referentes ao Brasil – dei uma geral na mesa-redonda e já vi que um dos debatedores faz grande elogios à seleção da Semana da Crítica, destacando A Via Láctea, de Lina Chamie. A revista também usa uma retrospectiva na Cinemateca e os lançamentos de Macunaíma, na versão restaurada, mais alguns DVDs, para homenagear Joaquim Pedro de Andrade, num texto com o título ‘O Lirismo a Serviço da Política’. E ah, sim, pela importância dada a Persépolis, do qual não gostei muito, e Les Chansons d’Amour, do qual, ao contrário de coleguinhas brasileiros, gostei bastante, deu para sentir que os dois filmes, mais o Tarantino, podem ter sido os preferidos da redação de Cahiers em Cannes, 2007. Em outubro, na Mostra, vocês conferem. Antes disso, em setembro, no Festival do Rio. E eu volto sobre o Tarantino.