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Luiz Carlos Merten

05 Julho 2010 | 15h39

Não tem nada a ver com cinema, mas vai ter. Lá no México, assistindo a todos aqueles jogos, ficava viajando no imaginário. Acho uma pena que Pelé nunca tenha merecido o grande filme que seu gênio de atleta autorizaria esperar. O cara pode ter tido, ou ainda estar tendo, uma vida extraordinária, mas não deu sorte no cinema nem quando uniu seu nome ao de um diretor como John Huston (em ‘Fuga para a Vitória’). Mas a verdade é que não existem muitos grandes filmes sobre futebol. Estou pensando nas ficções. Uma das melhores é ‘Rudo e Cursi’, que Diego Luna e Gael García Bernal produzem e interpretam (Carlos Cuarón é o diretor). O filme é recentíssimo, de 2008 ou 9, e mereceria ser lançado aqui no Brasil. Assisti-o em Cancun como um dos filmes disponíveis em DVD no quarto do hotel. Havia visto um especial sobre cinema e futebol, com imagens do filme. Ambos fazem irmãos, Gael bate o pênalti e Diego tem de defender. Na verdade, são duas cobranças de penalidade, em diferentes momentos da história e as duas definem a evolução da dupla de protagonistas. O nível melhora bastante quando se trata de documentários, e eu sou fissurado nos filmes de Emir Kusturica com Maradona e no de Philippe Parreno e Douglas Gordon com Zidane. O filme sobre o argentino é excessivo como seus autores – o diretor e o jogador –, e por isso mesmo é uma questão de pegar ou largar, sem meio termo. A devoção dos argentinos a Don Diego é uma coisa de louco. A humilhada seleção da Argentina desembarcou em Buenos Aires num clima de consagração do fiasco que desafia a lógica. Quanto ao filme sobre Zidane, mais do que um retrato do jogador, é uma obra de arte conceitual para se ver em êxtase. ‘Zidane – Um Retrato do Século 21’ foi um dos filmes que concorreram à Caméra d’Or, no ano em que fui jurado, em Cannes. Muito briguei por ele – e pelos filmes do México (El Violin’), da Espanha (‘Honor de Caballeria’) e do Paraguai (‘Hamaca Paraguaya’), que a mim, pessoalmente, interessaram muito mais do que o vencedor, ‘A Leste de Bucareste’, bancado pelos irmãos Dardenne, presidentes (conjuntos) daquele júri. ‘Zidane’ me arreba (e arrebenta). Uma partida inteira – Real Madrid e Villareal – vista pelo ângulo do jogador. O mundo cabe num campo de futebol, ou no coração (e na mente) de um homem, por que não? Mas ainda não cheguei ao tema do post. O tema, propriamente dito, é aquela foto que mostra Pelé, Maradona e Zidane jogando pebolim no Café Maravillas, acho que em Madri. Pelé, em primeiro plano, dá um largo sorriso, meio de lado, Zidane olha para ele (e também ri). Maradona é o único concentrado no jogo. Três jogadores excepcionais, uma jornada. A foto ilustra uma campanha da Louis Vuitton. Pode ser checada no site www.louisvuittonjourneys.com. É maravilhosa. Carrega uma mentira. Maradona admite, para Kusturica, que não aguenta ficar sem falar mal de Pelé. O ‘clima’ da foto é falso. Conta a lenda que Maradona se atrasou, ou não compareceu, e a foto foi feita só com Pelé e Zidane. Maradona foi fotografado em separado e a cena do trio foi ‘montada’, como as imagens de ‘Zelig’, de Woody Allen, ou de ‘Forrest Gump’, de Robert Zemeckis. Que trio! Que personagens! Adoro as figuras trágicas. Zidane dando aquela cabeçada no peito de Materazzi e sendo expulso do jogo entre França e Itália na Copa de 2006. Felipe Melo no gol contra, no jogo de sexta, com a Holanda. Meu mestre, John Ford – a grandeza dos derrotados. Joseph Conrad, meu (anti)herói preferido, Lord Jim, a trágica busca da segunda chance. Tantas jornadas, numa só foto.