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Luiz Carlos Merten

21 Outubro 2009 | 18h01

Estou chegando agora da rua – tive dentista, mais de uma hora de boca aberta naquela cadeira, que sofrimento. Decididamente, hoje parece não estar sendo meu dia. Pela manhã, cheguei cedo aqui no jornal, antes das 8, porque queria concluir minhas matérias sobre a Mostra, na edição de amanhã, para tentar ver ‘Os Substitutos’, na cabine do RoboCop. Ocorre que faltou luz – até quase 10 – e os meus planos foram por água abaixo, além de outros problemas, que nem vale relatar. Mas, enfim, estou agora correndo contra o tempo (de novo). Daqui a pouco, 7 da noite, no CineSesc, Luiz Zanin Oricchio faz a mediação no evento de lançamento do livro ‘Paulo Emílio – Jean Vigo’, com o estudo que o grande crítico brasileiro fez da obra do autor francês, uma referência na história do cinema por filmes como ‘L’Atalante’ e ‘Zero em Comportamento’. Estarão na mesa Antônio Cândido, Luce Vigo e Carlos Augusto Calil e, pelo que ouço dizer, Lígia Fagundes Telles estará na plateia e poderá intervir, aliás, espero que o faça, o todo culminando com a projeção de ‘Zéro de Conduite’. É curioso, mas assisti muito tardiamente aos clássicos de Jean Vigo e, no meu imaginário, ‘Se…’, de Lindsay Anderson, o ‘Zero em Comportamento’ da minha geração, precedeu a admiração que hoje sinto por ele. Mas sempre me tocou muito uma observação de François Truffaut, que dizia que quando Jean Dasté e Dita Parlo vão para a cama, no desfecho de ‘L’Atalante’, eles foram conceber o Michel Poiccard de Jean-Paul Belmondo em ‘Acossado’, de Jean-Luc Godard. Lindo, não? Só acho chato que esses cine-encontros, tão raros, terminem sempre ocorrendo aos pares, o que deixa o cinéfilo numa sinuca. Pois também hoje, e às 7 da noite, mas no CCBB, haverá a exibição de ‘O Amor É Mais Frio Que a Morte’, de Rainer Werner Fassbinder, no ciclo ‘Filmes Que Libertam a Cabeça’, seguido de debate com o ator e diretor Ulli Lommel, que permanece na cidade até sábado e amanhã e sexta terá novos encontros com o público do CCBB, para discutir Fassbinder e o filme que ele próprio fez, ‘A Ternura dos Lobos’. Pelo menos isso – os interessados terão mais duas oportunidades para se encontrar com o cara. Entrevistei o Ulli e a matéria está na edição de hoje do ‘Caderno 2’, mas não dá conta, pelo tamanho, da riqueza e complexidade do personagem. Depois da sua fase com Fassbinder, Ulli foi para os EUA e se integrou à Factory, de Andy Warhol. Achei muito interessante o que ele me disse, comparando um e outro. Ambos homossexuais, transgressores e líderes de grupos, tinham atitudes antagônicas diante da vida e da arte – Fassbinder fazia um cinema de confrontação com a sociedade e o mundo, Warhol era obcecado em se fazer aceitar (justamente o que Rainer Werner menos queria – ele dificuiltava ao máximo, confirmou Ulli Lommel, a tarefa dos que queriam amá-lo, exigindo um sentimento absoluto). Entre Fassbinder e Warhol, Ulli ainda gravitou por um certo tempo em torno de uma personalidade que, para mim, sobrepuja as edos outros dois. Quem? Luchino Visconti, cujo clássico ‘Rocco e Seus Irmãos’ é o filme favorito dele. Mas é o meu também, exclamei! Comentei com Antônio Gonçalves Filho e ele me lembrou uma observação do grande Luchino, aristocrata que se fez, como opção política, comunista. ‘A vida social divide-se em duas classes, apenas – os aristocratas e os marginais.’ Ulli, falando dele, experimentou as duas pontas. O cara é bacanérrimo. E suas histórias de Fassbinder, como quando eles foram ver ‘Imitação da Vida’, de Douglas Sirk, são reveladoras. Tanta coisa boa ocorrendo hoje, e a gente tendo de escolher…