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‘Tambores Distantes’

Luiz Carlos Merten

27 Dezembro 2009 | 18h46

Ainda Capra. O diretor de ‘A Felicidade não se Compra’ acreditava nos próprios truísmos e um deles é justamente o de que o dinheiro não traz a felicidade. A propósito, estava no Shopping Bourbon em Porto quando vi um cara com uma camiseta – na verdade, nem fui eu, foi minha ex, Doris, quem me chamou a atenção; a propósito, leiam no blog dela seu texto sobre ‘Avatar’ – com os seguintes dizeres. ‘Se você acha que dinheiro não traz felicidade, passa a grana e vai ser feliz!’ Sensacional! Mas agora quero falar especialmente com Mauro Brider, que comprou o DVD de ‘Tambores Distantes’ – ele talvez já tenha visto o filme – e me pergunta que lembrança tenho do western de Raoul Walsh. ‘Distant Drums’, com Gary Cooper, é de 1951, situando-se entre dois outros filmes com Gregory Peck – ‘O Falcão dos Mares’ e ‘O Mundo em Seus Braços’, que também saiu em DVD. Ou eu me engano muito ou entre ‘Tambores’ e ‘The World in His Arms’, Walsh fez mais um filme, mas a memória me trai e eu não saberia dizer qual é. O que tenho certeza é que o western de Walsh antecipa de dois anos o de Budd Boetticher, ‘Seminole’, com o qual compartilha a paisagem. Em vez das planícies do Velho Oeste, os pântanos da Flórida, onde habita(va)m os índios Seminoles. O filme repete – em termos – uma experiência muito curiosa de Walsh, que, em 1949, com o western ‘Golpe de Misericórdia’, refez, em outra paisagem, o clássico de gângsteres ‘Seu Último Refúgio’, de 1941. Em ‘Tambores Distantes’, de novo no western – mas numa paisagem inabitual do gênero -, o grande diretor refez seu clássico de guerra ‘Objective Burma’, de 1945, que no Brasil se chamou ‘Um Punhado de Bravos’. Não me lembro da história em detalhes, mas Gary Cooper faz capitão que ataca (e destrói) fortificação dos Seminoles, tomando alguns prisioneiros. A chegada do chefe da tribo com seus guerreiros a força a fugir para os pântanos e a se refugiar na ilha em que mora só com o filho. O capitão é um homem desencantado com o mundo – a época ainda é a primeira metade do século 19, anterior ao advento dos pistoleiros – e a ilha é o seu paraíso perdido, um espaço meio mítico que não desagradaria a famosos autores de aventuras, além de naturalistas, como Jack London e Robert Louis Stevenson. Mauro me pergunta o que lembro do filme? A paisagem, claro, realçada pelas cores luminosas, e o confronto final entre o capitão e o chefe índio, que logicamente não pode ser resolvido num duelo a bala e vira uma briga de faca, que Walsh filma debaixo d’água. Pode ser que a lembrança me traia, mas a cena é muito plástica (e intensa), o que o Mauro poderá nos confirmar. Walsh contava que seu amigo Gary Copper queixava-se de nunca ter dado tanto sangue por um filme, mas ele se referia aos mosquitos, os borrachudos da Flórida, que quase o comeram vivo. Vai lá, Mauro, que acho que vai valer a pena. No meu imaginário, o que retenho do filme basta para situá-lo como uma das grandes obras de Walsh.