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Cultura » Surpresas no Goya

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Luiz Carlos Merten

04 Fevereiro 2008 | 06h21

BARCELONA – A festa do Oscar espanhol começou ontem às 10 da noite e entrou pela madrugada, terminando pouco depois da 1 hora (da manhã). ‘El Orfanato’ e ‘Las Trece Rosas’ eram os favoritos, cada um com 14 indicações. Na imprensa – jornal e TV -, todo mundo dava como certa a vitória de ‘El Orfanato’, produzido por Guillermo Del Toro. O filme ganhou a maioria dos prêmios técnicos e dois prêmios importantes – melhor roteiro e diretor estreante, para J.A., de Juan Antonio, Bayona. Em compensação, perdeu o prêmio que onze entre dez comentaristas consideravam o mais certo – o de melhor atriz para Belén Rueda, como a mulher que tenta resgatar o filho de entre os mortos. Quem levou o Goya – nunca havia reparado, mas a estatueta é uma cópia do busto do grande pintor que está no Prado – foi Maribel Verdú, que ficou sinceramente surpresa com a vitória. Ela concorria por um filme chamado ‘Siete Mesas de Billar Francés’, também interpretado pela ‘almodóvariana’ (de ‘Volver’), Blanca Portillo. Mas a grande, a maior surpresa da noite, foi a vitória de ‘La Soledad’, de Jaime Rosales, nas categorias de melhor filme e direção. O filme recebeu três indicações e levou todas – além das duas citadas, a de melhor ator estreante, ou revelação de ator, como eles chamam aqui. ‘La Soledad’ foi exibido em Cannes, no ano passado. Trata da dor das mulheres, tomando como ponto de partida dois casos exemplares – e uma dessas mulheres foi vítima de terrorismo. O mais surpreendente é que o próprio diretor achava que, se recebesse alguma indicação, seria nas categorias de roteiro e atriz. A vitória de ‘La Soledad’ foi saudada como signo da diversidade do cinema espanhol. O diretor agradeceu a parceria da TV e disse que sem ela – e a ajuda para projetos não comerciais – é muito difícil desenvolver projedtos autorais no país. A síntese da festa foi a imagem de Belén Rueda quando Rosales e seus produtores subiram ao palco para receber o Goya ‘a la mellor pelicula’. A cara dela não era só de surpresa. Era de quem não estava entendendo nada. Já vi cartazes de ‘El Orfanato’ no Brasil, não me lembro se no Unibanco Arteplex ou no Arteplex do Rio (quem sabe em ambos). O filme é o maior sucesso recente de público do cinema espanhol. Sua derrota foi temperada por alguns prêmios destacados, mas a pobre Belén Rueda ficou em choque. O próprio apresentador da festa sentiu-se na obrigação de descer à platéia e entrevistá-la, para saber como estava, o que imagino que deva ter sido uma humilhação para a atriz. Acho, de qualquer maneira, que André Sturm ou Jean-Thomas Bernardini, nossos distribuidores ‘de arte’, que privilegiam o cinema europeu, deveriam ficar de olho em ‘La Soledad’. Desde Cannes, o filme já havia provocado certa sensação porque o diretor usou o que está sendo definido como ‘polivisión’. Ele filmou cada plano com duas técnicas diferentes (e simultâneas), fazendo suas opções depois, na montagem. É uma coisa meio maluca, que não sei se consigo explicar. Jaime Rosales usou uma só câmera para filmar o diálogo com som, mas não a sua continuidade – a réplica -, o quer ele próprio diz que lhe criava constantemente problemas de sincronicidade, ‘añadidos’ (incorporados) à linguagem de ‘La Soledad’. Imagino que, pesquisando na internet, voces consigam mais informações.