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Luiz Carlos Merten

30 Novembro 2006 | 14h09

Nunca fui a Sundance e, realmente, não é um festival que me atraia muito, até porque acho que terminou havendo uma diluição no conceito de produção independente e hoje, com raras exceções, os indies fazem cinema de fórmula como Hollywood, só que diferente. Mas não posso deixar de ficar contente pelos dois brasileiros que irão a Park City, no Utah, para participar do festival criado pelo Robert Redford, que filmou ali perto o genial Jeremiah Johnson (Mais Forte Que a Vingança), de Sydney Pollack, um dos filmes que são faróis na minha vida. Os dois brasileiros, na verdade, são três, porque o Brasil participa da competição de ficção com O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia, que pode desconcertar os gringos por seu enfoque inusitado da questão social brasileira, e da outra competição, a de documentário, com Acidente, de Cao Guimarães e Pablo Lobato, que, aí sim, fico curiosíssimo de saber se o olhar estrangeiro vai conseguir absorver o alto grau de inovação e investigação poética deste filme tão delicado e bonito. Cao e Pablo pertencem à escola mineira e, no Festival do Rio, teve gente que andou meio que torcendo o nariz para Acidente, achando que o filme deles é videoarte e coisa e tal. Não acho que seja e vou torcer por esta turma talentosa no Sundance e só fico em dúvida se a ida para lá inviabiliza a participação de O Cheiro do Ralo em Berlim. Ouvi dizer que Berlim, em 2007, poderá abrigar vários brasileiros e mais não digo porque tenho medo de inviabilizar a negociação (esses festivais são muito ciosos de seus convites e do sigilo que eles envolvem). De volta a Park City, quero dizer que, se o Sundance não me atrai muito, o Utah é o maior sonho de consumo da minha vida, que ainda não consegui realizar. Dito assim, ‘consumo’, não fica legal, mas meu sonho de cinéfilo é ir a Monument Valley, a reserva indígena em que John Ford filmou seus grandes westerns. Para mim, e milhões de westernmaníacos ao redor do mundo, Monument Valley é um solo sagrado do cinema. O meu Vaticano, a minha Meca, a minha Medina. Às vezes, vendo Rastros de Ódio e outros filmes do Ford que são cults para mim, penso o que seria tirar o sapato e colocar o pé naquela terra. Acho que iria chorar, mas, enfim, sou um sentimental…