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Luiz Carlos Merten

15 Novembro 2009 | 13h39

Fui ontem ao Rio para visitar o set de ‘Sudoeste’, o longa de estreia de Eduardo Nunes, um conhecido – e premiado – diretor de cuertas, que levou dez anos para concretizar seu longa. O curioso é que, no ano passado, Eduardo fez um curta com Simone Spoladore, ‘2 da Manhã’ e o curta foi espichando, espichando até virar outro longa que ele só vai lançar depois de ‘Sudoeste’, também com Simone Spoladore. O filme está sendo feito numa ponta da lagoa de Araruama, junto a Arraial do Cabo, numa área salineira. O décor é impressionante, um velho salitre abandonado, açoitado pelo vento e sob um sol escaldante. Fiquei apenas duas horas no local e o mais maluco é que saí cedo de casa. Fiquei o dia entre aeroportos e na estrada, mas valeu a pena. Que lugar impressionante! O filme passa-se durante apenas um dia da vida de uma mulher, ou melhor, a vida dessa mulher transcorre durante apenas um dia. Ela nasce de manhã e morre, velhinha, no entardecer, mas esse tempo acelerado para ela é realista – normal – para os outros. Conversei com Eduardo Nunes sobre suas influências cinematográficas (Tarkovski), leituras (‘O Tempo e o Vento, ‘Cem Anos de Solidão’) e saí torcendo para que ‘Sudoeste’ dê certo. Tomara! Embora breve, minha permanência no local foi marcada por encontros. Adoro Simone Spoladore, que foi minha companheira no júri de Brasília, quando premiamos o ‘Eu me Lembro’, do Edgard Navarro. Simone está ótima em ‘Natimorto’, do Paulo Machline, e também participa de ‘Canção de Baal’, de Helena Ignez, que ganhou Gramado (e do qual gosto muito). Acho que nunca tinha conversado tanto com Mauro Pinheiro Jr. Fotógrafo de ‘Os Famosos Duendes da Morte’, ‘Insolação’, ‘No Meu Lugar’, ‘Linha de Passe etc, ele filma aqui de novo em preto e branco, adotando novo formato (3.66) para captar a horizontalidade da paisagem salineira, uma experiência que está sendo muito bacana, mas que vai ser preciso esperar para ver nos cinemas. Mauro fotografou ‘Cinema, Aspirinas e Urubus’ e eu lhe contei que outro dia, nem me lembro onde, me perguntaram à queima-roupa, numa entrevista, qual o maior filme brasileiro da retomada. Não pensei duas vezes e citei o de Marcelo Gomes. Só depois fui pensar por que ‘Aspirinas e Urubus’ mexe tanto comigo. Disse o que talvez seja bobagem, que é um filme perfeito, ou quase. Mauro acrescentou que perfeito não é, mas ele próprio ama o filme justamente por suas imperfeições. Na volta, pela serra, passei por um lugar na divisa entre Maricá e Saquarema, por um hotel-fazenda que se chama Portal da Serra, será isso. Vi aquilo de cima, era um sol meio dourado, a tarde já ia caindo. Achei aquilo tudo tão maravilhoso. Os lugares, as pessoas! Por mais cansativo que tenha sido, foi muito bom.