Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Sucesso do Ano

Cultura

Luiz Carlos Merten

09 Fevereiro 2007 | 18h01

BERLIM – Foi linda a sessão de O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias. Desde o Festival do Rio e, depois, na Mostra e na estréia, havia visto o filme do Cao Hamburger três vezes. Ontem vi pela quarta, no Berlinale Palast. Foi o mesmo filme, e foi diferente. A entrada do Mauro naquela comunidade judaica do Bom Retiro ganhou outro sentido. Quer dizer – permanece aquele assinalado quando vi o filme no Brasil. Ele fala do exílio interior, de como é crescer numa ditadura, como é ser confrontado com uma cultura que a gente não conhece e o que é viver a paixão do futebol. Tudo isso é verdade, mas agora tive um choque com a cena da sinagoga. Aquele culto é filmado com tanto respeito. Meu Deus! É outra coisa projetado aqui nesta cidade, onde ainda se pode ver, como museu, a geografia do terror do 3.o Reich. Juntou tudo na minha cabeça e eu, se já gostava do filme do Cao, agora amei. Nunca sua universalidade me pareceu tão flagrante. Jornalistas de várias nacionalidades vieram me dizer que haviam gostado. Quiseram compartilhar sua emoção comigo, que sou brasileiro. A coletiva foi ótima. Sabia que Cao era meio italiano (por parte de mãe) e meio judeu (pelo pai). Não sabia, confesso, que seu pai nasceu em Berlim e ele contou uma história maravilhosa. Quando a família de seu pai migrou para o Brasil, a casa que possuíam foi confiscada pelos nazistas e, depois, pelos comunistas. Há alguns anos, Cao recebeu do governo alemão uma correspondência. O terreno (a casa foi destruída) está sendo devolvido à família. Ele trouxe o filho e, munido de uma câmera de vídeo, vai gravar sua visita à propriedade. Não é pelo dinheiro, pois a família é grande, são muitos herdeiros e ninguém vai ganhar muito, se o terreno for vendido. É pelo princípio da coisa. O Ano conta a história de um exílio interno e de um exílio tão grande que o pai, ao sair de férias, embarca num rabo de foguete e nunca mais volta. Em Berlim, agora, além de mostrar seu filme, Cao reata com a história de sua família. Essas coisas me emocionam muito. Já que o filme também trata de futebol, e da mítica Copa de 70, um jornalista alemão colocou Cao à prova. Perguntou se ele era capaz de recitar a escalação da seleção que ganhou o tri no México. Cao respondeu na lata e disse que qualquer pessoa que ame o futebol-asrte deveria ter aquela seleção (Félix, Pelé, Tostão, Gérson, Jairzinho, Rivelino e etc) na ponta da língua. A coletiva, que começou com um forte aplauso do público, terminou apoteótica.