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Luiz Carlos Merten

19 Setembro 2010 | 12h45

Estou na redação do ‘Estado’. Vim fazer os filmes na TV de amanhã – ‘A Dama de Shanghai’ vai passar na madrugada do TCM –, mas não resisto a acrescentar um post, mesmo correndo o risco de me atrasar para a sessão de ‘A Batalha de T.E.R.A.’, que quero ver agora, em 3-D, no Marabá. Revi ontem em DVD ‘Sublime Obsessão’. Pela manhã, antes de sair de casa, tentei localizar o livro com a entrevista que Douglas Sirk deu a Jon Holliday Ou será Halliday? Acho que é A. Queria reler o que Sirk diz de ‘Magnificent Obsession’. O livro é maravilhoso, mas, como outros grandes livros de entrevistas – o de Michel Ciment com Elia Kazan, o de Tom Milne com Joseph Losey, o de Peter Bogdanovich com John Ford etc –, nunca interessou aos editores brasileiros, que já devem ter achado um favor publicar ‘Hitchcock Truffaut’. Burros, sorry. Sirk era homem de grande cultura, sua análise da própria obra, ou das intenções, é coisa de deixar acadêmico correndo atrás de bússola, para se orientar perante tanta erudição. Sirk era do tipo que não tinha lido só a orelha de livro. Leu inteiro, teve tempo de absorver. Mas o livro sobre ele não estava na estante. Devo ter tirado para alguma consulta e deixado solto, em meio às pilhas de outros livros, revistas e DVDs que estão atravancando minha casa. ‘Sublime Obsessão’ foi o primeiro da série dos melodramas de Sirk com Rock Hudson, mas não o primeiro filme do diretor com o astro. Já haviam feito o western ‘Herança Sagrada’, com Hudson no papel de Taza, filho de Cochise, que Jean Tulard, no ‘Dicionário de Cinema’, define como ‘memorável’. Lembro-me do começo, a morte de Cochise, numa participação de Jeff Chandler, que havia feito anteriormente o papel em ‘Flechas de Fogo’, de Delmer Daves. Aliás, ontem, encontrei numa loja do centro o DVD de ‘Amores Clandestinos’ (Summer Place), melodrama de Daves com Sandra Dee e Troy Donahue, que se abraçam sugestivamente na capa. A trilha de ‘Amores Clandestinos’ embalou minha juventude, mas deixa para lá. ‘Sublime Obsessão’ é um remake do melodrama de John M. Stahl, nos anos 1930. Rock Hudson substitui Robert Taylor como o playboy que causa, indiretamente, a morte de um cirurgião e filantropo e, depois, tenta se aproximar da viúva (Jane Wyman, no papel que foi de Irene Dunne). Jane resiste aos seus avanços e, quando está prestes a fraquejar, foge de carro, sofrendo um acidente que a deixa cega. Rock Hudson então toma jeito na vida, vai estudar medicina e, sob a inspiração de um amigo da família dela, um artista, opera a mulher amada. Sirk havia feito, anos antes, aquele que muita gente considera seu filme mais estranho – ‘O Poder da Fé’, sobre jesuíta cético quanto ao milagre que teria ocorrido em sua pequena cidade. Pois bem, como cirurgião, assumindo o lugar do marido morto, Hudson realiza ele próprio um milagre e Jane recobra a visão. É o filme ‘cristão’ de Sirk. É magnífico, para pegar carona no título. Na época, 1954, os críticos cagavam, me desculpem a vulgaridade, para os melodramas de Sirk. Ele explicava porque ‘estacionou’ no gênero. Nas histórias dos melodramas encontrou seu ideal, a tragédia grega, em que tudo se passa em família, no mesmo lugar. “E essa família é idêntica ao mundo, é o símbolo do mundo”, dizia o autor. Jane Wyman já era uma estrela, havia recebido o Oscar (por ‘Belinda’), mas era meio sem graça, muito suburbana (o que a torna perfeita para o papel). Hudson virou astro. Era gay, morreu de aids e, soube-se depois, protagonizava festas em mansões de Hollywood que faziam Sodoma e Gomorra parecer uma assembleia de crentes. Rock Hudson era melhor ator do que parecia. ‘Remember’ George Stevens, ‘Assim Caminha a Humanidade’. Para Sirk, representava o ideal masculino. Íntegro, sólido. Ele foi, nos melodramas de Sirk, o equivalente de John Wayne nos westerns de John Ford. O personagem sirkiano ambivalente, vacilante, em geral era interpretado por Robert Stack (em ‘Palavras ao Vento’ e ‘Almas Maculadas’). Rock Hudson não vacilava na tela. Os melodramas di diretor foram ficando cada vez mais barrocos e a sua mise-en-scène passou a privilegiar os espelhos e as escadarias para expressar o ‘teatro’ de suas tragédias burguesas (e familiares). Adorei rever ‘Sublime Obsessão’.

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