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Luiz Carlos Merten

28 Novembro 2008 | 13h47

Neill, foste tu não?, acrescentou um comentário ao meu post sobre Woody Strode dizendo que ‘Audazes e Malditos’ é um de seus quatro westerns favoitos. Também adoro o filme de John Ford, mas os críticos diriam que é um western impuro, com seu formato de thriller policial e a narrativa em flash-back para chegar, no tribunal, à revelação sobre quem matou e o sargento Rutledge (Woody Strode) está levando a culpa. Isso ocorria para que mestre Ford criticasse o racismo na Cavalaria (como expressão da sociedade dos EUA). Tenho para mim que foi o flash-back de ‘Audazes e Malditos’ que liberou o Homero de Hollywood para a construção em puzzle, essencialmente desmistificadora – a anatomia do heroísmo -, de ‘O Homem que Matou o Facínora’. Mas quero pegar carona no Neill para falar de outra coisa. Se ‘Audazes e Malditos’ é um de seus quatro bangue-bangues preferidos, quais serão os outros três? Desde que assisti a ‘Winchester 73’, de Anthony Mann, no Telecine Cult, tenho quebrado a cabeça. Já escrevi aqui que há 40 anos, ou mais, não perdia a revista ‘Manchete’ porque trazia, semanalmente, o comentário de Maurício Gomes Leite. Lia Jean-Claude Bernardet na ‘Última Hora’, que meu irmão, funcionário da Varig, recolhia dos aviões – era leitura de bordo – e levava para casa. Lia, em Porto, jornais do Rio, de São Paulo, de Nova York e Los Angeles. Adorava as análises políticas’ de Bernardet – sua série sobre ‘O Bandido Giuliano’ me marcou muito e, mais tarde, Luiz Sérgio Person e ele beberam na fonte do clássico de Francesco Rosi para fazer ‘O Crime dos Irmãos Naves’ -, mas Antônio Moniz Vianna, no extinto ‘Correio da Manhã’, e Maurício Gomes Leite, na ‘Manchete’, esses eu carregava no coração. Maurício, que depois virou diretor – do cult ‘A Vida Provisória’ – pertencia à geração mineira de Carlos Alberto Correia. Lembro-me de um texto dele, curto mas antológico, sobre ‘Sublime Loucura’ (A Fine Madness), de Irwin Kershner, com Sean Connery na pele do poeta Samsom Shilittoe. O filme era de 1966, maravilhoso. Encarnava toda a rebeldia e inventividade da época. Maurício Gomes Leite não era sectário. Amava Godard, Kershner e o western. Ele também tinha quatro westerns favoritos e eu estou aqui queimando meu fósforo para descobrir qual era o quarto. Só me vêm três – ‘Winchester 73’, do grande Anthony Mann, ‘Caravana de Bravos’, de John Ford, e ‘Um De Nós Morrerá’, de Arthur Penn, que Maurício Gomes Leite só citava pelo título francês, ‘Le Gaucheur’. Tudo isso está aqui martelando minha cabeça desde que (re)vi ‘Winchester’. Vou falar do filme no próximo post. E o Neill, se quiser matar minha curiosidade, que poste sobre seus outros favoritos. Quem sabe não serão meus, também?