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Sua incelença, Gabriel Villela

Luiz Carlos Merten

20 Novembro 2010 | 12h33

NATAL – Cá estou desde a madrugada de ontem. Embarquei em São Paulo no fim da noite de quinta, cheguei de madrugada – lá pelas 3 horas no hotel – e 7 e pouco já estava acordado porque tinha o programa ao vivo na Rádio Eldorado e também tinha de gravar os comentários para a Metrópole, de Salvador. Tinha matérias para as edições de hoje e amanhã do ‘Caderno 2’ e tudo isso me consumiu tempo. Mas viemos ao Rio Grande do Norte, Dib Carneiro e eu, para a estreia de ‘Sua Incelença, Ricardo III’, montagem de Gabriel Villela para o texto clássico, com o grupo Clowns de Shakespeare. Fomos almoçar no Camarões, onde comi os melhores camarões da minha vida – e olhem que a Oficina do Sabor, em Olinda, também os serve, deliciosos, na moranga. As voltas que o mundo dá. Estávamos esperando mesa, eu de costas para a entrada quando Gabriel me disse – ‘Olha quem chega’. Era Rubens Ewald Filho, acompanhado de Wilson Cunha, ex-Canal Brasil. Só então eu soube que era o último dia do Festival de Natal, que completa 20 anos, sempre realizado de forma modesta, leia-se com pouquíssimo dinheiro (ou sem), por Valério Andrade. Wilson e Rubinho foram homenageados – o prêmio de Rubinho era por seu trabalho na Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial. Rubinho eu encontro nas cabines. Wilson Cunha não via há tempos. Não cometo nenhuma indiscrição se disser que, conversa vai, conversa vem, surgiu o convite, que Dib aceitou, de fazer um desses álbuns sobre a carreira de Gabriel. Tenho perdido muitos amigos nos últimos anos. A maioria tem morrido, simplesmente. São as agruras da terceira (melhor?) idade. De muitos deles, no Sul, até pela distância, eu já vinha me afastando. Quando morrem, confesso, é difícil de explicar, mas é como se me tirassem pedaços. Um dos privilégios dessa quadra da minha vida tem sido a amizade de Gabriel Villela. Seu humor, sua inteligência, seu incrível talento são, como dizem os norte-americanos, ‘inspiradores’. E, quando Gabriel acerta em suas montagens, o que ocorre com frequência (quase sempre), temos espetáculos como ‘Salmo 91’, a partir da peça de Dib Carneiro adaptada de ‘Estação Carandiru’, de Drauzio Varela, e ‘Calígula’, da peça de Albert Camus (que Dib traduziu). Os dois, o Villela e o Carneiro, estão associados de novo para outro projeto que promete ser maravilhoso. Dib adaptou e Gabriel Villela vai montar ‘A Crônica da Casa Assassinada’, de Lúcio Cardoso, que já foi filme (só ‘A Casa Assassinada’, de Paulo César Sarraceni) por volta de 1970. Gabriel planeja colocar Xuxa Lopes no papel que foi de Norma Bengell no cinema. Seu reencontro com a mineiridade (e o barroco)- se bem que uma e outro ele carrega sempre – promete(m) bastante. Gabriel convenceu o Dib a finalizar a peça em Minas, mais exatamente, em Ouro Preto – em janeiro passado -, para que ele sentisse o clima das Gerais. Gabriel passou quatro meses aqui em Natal trabalhando com os Clowns. ‘Sua Incelença’ baseia-se na tradução feita pela mãe de Bárbara Heliodora. A peça é enorme. Foi reduzida, melhor dizer condensada, para 1h20. Depois de ‘Romeu e Julieta’ e ‘Rua da Amargura’, com o grupo Galpão, Gabriel volta ao universo da cultura popular com os Clowns. Foram os 80 minutos mais breves e de puro encantamento da minha vida. Muita música, de ‘Assum Preto’ e Freddie Mercury e uma compreensão da linguagem do corpo do ator que me levaram numa viagem além dos limites da imaginação, bem como o narrador nos propõe, na abertura da peça. Gabriel é m,uito ‘cinematográfico’. Não precisa de vídeo nem telão para encorporar Fellini e seu amado Kusturica. O espetáculo soma, potencializa, linguagens – mamelungos, mímica, clowns, tragédia. Veio um russo ver o espetáculo. Desembarcou no fim da manhã de quinta em Natal, assistiu ao espétáculo e às 3 da tarde já estava indo embora. Ele garimpa atrações para um festival na Rússia em 2013 (13!). O russo já havia assistido a espetáculos feitos por outros coletivos, inclusive adaptando autores da terra dele. O cara se tomou de amores por sua ‘incelença’. Queria saber qual era a escola de Gabriel? A escola, ele gosta de dizer, é o ‘rebolation’. Como artista brasileiro, produto de uma cultura colonizada, ele se apropria como pode das ferramentas que essa mesma cultura lhe oferece e as adapta às singularidades da nossa realidade. Rebola, bem. Glauber fazia isso no cinema, com sua visão delirante. Pirei vendo ‘Sua Incelença, Ricardo III’. O espetáculo faz curta temporada agora em Natal e depois só volta no Festival de Curitiba, em março. Foi o teatro que me trouxe ao Rio Grande do Norte, o oposto, geograficamente, ao ‘meu’ Rio Grande do Sul. Ando seco por um cineminha. tentei ver ontem ‘Muita Calma nessa Hora’, mas os horários não batiam. Já havia tentado assistir à comédia no fim de semana passado, mas ela estava sempre lotada. ‘Muita Calma’ foi uma surpresa – teve salas cheias em todo o Brasil. É boa? Espero. A corrida do público deve ser efeito do aquecimento do mercado por ‘Tropa de Elite 2’. Foram, estão sendo, tantos sucessos este ano que imagino que os números finais da produção e exibição nacionais em 2010 poderão apontar para um novo recorde de share – a presença brasileira no próprio mercado. Sei, sei, sucesso de público não é o único termômetro de avaliação, talvez nem seja o melhor, mas não sou louco de subestimar, ou desqualificar, o cinema que atrai espectadores. Volto a Gabriel Villela. ‘Meu reino por um cavalo!’ Já vi tantos atores, no teatro e cinema, pronunciarem a frase famosa. Vocês não perdem por esperar. E os assassinatos…? De onde um diretor tira tanta criatividade? Muita calma, Merten. O excesso de talento (dos grandes artristas) pode te inebriar.

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