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‘Su pequeña huella/no vuelve más…’

Luiz Carlos Merten

05 Março 2010 | 11h42

Estou há dias, aliás, semanas para acrescentar o post que vocês vão ler agora. Estava em Paris, a caminho de Berlim, quando li no ‘Le Monde’ que Ariel Ramirez havia morrido. Quase tive um troço. Por volta de 1970, já era casado com a Doris, viajávamos muito pela América Latina. Primeiro Uruguai e Argentina, vizinhos de Porto (Alegre), depois Chile, Bolívia e Peru. Mais do que o cinema, acho que, naquela época, foi a música que forjou minha identidade latino-americana. Ariel Ramirez foi fundamental no processo. Pianista de formação clássica, ele descobriu o folclore argentino e fez dele a sua matéria prima, que pesquisou em incessantes viagem de ‘investigação’ pelo país. Quando o descobri, já fazia quase dez anos desde que, em 1961, havia feito sensação com um vinil, ‘Folklore Nueva Dimension’, no qual revelou dois virtuoses do charango e da percussão, Jaime Tórres e Domingo Cura. Alguns anos depois, com os mesmos instrumentistas e o grupo vocal Los Fronterizos Ariel Ramirez gravou a ‘Misa Criolla’. Eram outros tempos, em que o Papa João XXIII e o concílio Varticano II abandonavam o latim, na liturgia católica, favorecendo a incorporação de línguas e tradições populares nos diferentes países. Ah, a Teologia da Libertação… Ariel Ramirez propôs sua missa em espanhol, na qual dialogava com o folclore. Com a ‘Misa Criolla’ surgiu ‘Navidad Nuestra’ e, dentro dela, ‘Peregrinación’, que é uma das coisas mais belas do mundo. Eu amava Ariel Ramirez e os Fonterizos. Sucessivamente, descobri Quillapayun, Victor Jara, Violeta Parra e Isabel Parra no Chile, Alfredo Zitarrosa e Tabare Etcheverría no Uruguai. A ‘Milonga de Ojos Dorados’ de Zitarrosa até hoje me faz chorar (estou ouvindo mentalmente o cara cantar enquanto escrevo este texto). Creio que a Doris ainda guarda aquelas dezenas, centenas de vinis que comprávamos pela América Latina afora. esqueci-me de perguntar – estive com ela, ontem – se ainda tem ‘Coronación del Folklore’, um clássico de Ariel Ramirez com outro gênio da música latina, Eduardo Falu.  Ramirez morreu aos 88 anos, perto de Buenos Aires. Ele compôs também ‘Alfonsina y el Mar’, que Mercedes Sosa gravou num disco visceral, ‘Mujeres Argentinas’, mas eu, por mais que goste da ‘Negra’, prefiro a gravação da ex de Astor Piazzolla, Amelita Baltar. Existem músicas que, na minha cabeça, estão muito associadas ao cinema. Não que tenham sido usadas em filmes (ou compostas para eles). São canções que passam como filmes. ‘Domingo no Parque’, de Gilberto Gil, eu ouço como um curta metragem. ‘Alfonsina’ é outro filme. ‘Por la blanda arena/Que lame el mar/Su pequeña huella/no vuelve más…’ E adiante – ‘Y se llama él/No le digas que estoy/Dile que Alfonsina se ha ido.’ Posso soar melodramático – mas eu curto demais um melodrama, vocês sabem. Não resisto. Na mesa à minha frente, Jotabê Medeiros acaba de encontrar em algum lugar, na internet, um texto intitulado ‘Uma lágrima para Johnny Alf’, sobre o precursor da Bossa Nova, que também morreu (ontem). Eu me permito agora verter, tardiamente, minha lágrima por Ariel Ramirez.