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Sturges e Becker? Não – Becker e Bresson

Luiz Carlos Merten

21 Abril 2008 | 16h29

Já disse que gosto de ‘Fugindo do Inferno’ e que o filme tem a cara do grande espetáculo que John Sturges fazia na empresa United Artists, nos anos 60. Ele havia iniciado a década com sua transposição de ‘Os Sete Samutrais’ para o Wild West, que resultou em ‘Sete Homenas e Um Destino’, aliás, ‘The Magnificent Seven’, Os Sete Magníficos. Depois, reuniu boa parte do elenco daquele filme de gênero (western) numa eletrizante aventura de guerra – ‘Fugindo do Inferno’. Já disse que Steve McQueen, no lombo daquela motocicleta, faz parte do meu imaginário. Mas faz mais sentido comparar ‘Fugindo do Inferno’ com outros filmes sobre fugas de prisioneiros durante a 2ª Guerra – com ‘O Expresso de Von Ryan’, de Mark Robson, com Frank Sinatra, que é de 1965. O filme de Sturges foi feito dois anos antes e é melhor do que o de Robson. Não creio que exista muita possibilidade de se relacionar ‘Fugindo…’ com ‘A Um Passo da Liberdade’, que foi o último filme de Jacques Becker, em 1960. Ele já estava tão debilitado que seu filho, Jean Becker, que virou mais tarde diretor de ‘Verão Assassino’ e ‘Conversas com Meu Jardineiro’, teve de filmar alguns planos, a pedido do pai. No filme francês, um grupo de presos planeja sua fuga. O cineasta faz uma minuciosa descrição dos planos, construindo seu filme muito claustrofóbico – e nos detalhes – para concluir com a traição de um dos integrantes do grupo. Becker baseou-se num relato de José Giovanni, que colaborou no roteiro (e depois o roteirista também virou diretor). ‘A Um Passo da Liberdade’ é despojado, claro, mas sua simplicidade é enganosa. É um filme complexo sobre o desejo humano de liberdade e um estudo admirável da natureza humana em condições adversas. Bresson, cinco anos antes, havia feito ‘Um Condenado à Morte Escapou’, baseado na história real da fuga de um dirigente da Resistência francesa de uma prisão que os nazistas consideravam inexpugnável. Só que Bresson esvaziou seu filme de toda referência à Resistência, concentrando-se no que lhe interessava – a abstração e a universalização do relato. Dei uma paradinha – estou na Redação do ‘Estado’ e fui ao ‘Dicionário’ de Jean Tulard, porque me lembrava que ele dizia uma coisa em que acredito sobre o Bresson. Sua temática essencial, escreve Tulard, consiste no tema visual das paredes nuas, tema espiritual correlato à pureza. Isso tem tudo a ver com as paredes nuas da cela de ‘Um Condenado à Morte Escapou’, que Bresson transforma na busca da graça, no sentido divino, por meio da expiação do sofrimento pelo personagem, interpretado por François Leterrier. E a visão que o diretor tem da liberdade é muito interessante. A idéia de Bresson é a de que o cara está vivo na prisão, tentando fugir. Quando salta aquele muro, e o final é abrupto, entra uma música – de quem? Bach? – que tem um toque fúnebre, como se o cara morresse ao recuperar a liberdade. Vou contar a vocês. Já disse que gosto do filme do Sturges, mas os de Becker e Bresson… Estão num outro compartimento, o das obras-primas!